A sua casa estava sempre cheia, como na comemoração de seus 90 anos.
Discreta e reservada, não gostava de discursar e falava baixo, de forma mais íntima. Assim todos se comportaram no momento de despedida da professora Maria Helena Fernandes Cardoso, a querida tia Dorinha, que todos amavam e por quem nutriam verdadeira adoração. Muitos, de diversas cidades, como Goiânia, São Paulo, Brasília, Monte Carmelo e Nova Ponte, MG, e Goianésia, GO. compareceram ao velório, para o último adeus, na tarde de sábado, dia 23, em Uberlândia, MG, e foram comedidos: ninguém discursou, mesmo reconhecendo o grande legado que deixou, de união e saudável convivência em família, e a história dos Naves no Brasil, em livro que repercute muito. “Houve momentos de aceitação, emoção e gestos pessoais, quase imperceptíveis, de agradecimento”, notou Helder Naves Torres, que morou em sua residência, onde ela acolheu muitos sobrinhos e primos, e que ela, que não se casou, criou como filhos.
“Seu rosto estava sereno e firme, parecia descansando”, disse Helder. “O interessante no velório foi que ela estava com os óculos dela, simbolizando toda sua trajetória de educadora”.
Ao ganhar uma festa pelos 90 anos, em 2025, surpresa, ficou feliz. Já comentava, discretamente, que queria ir embora de repente, sem incomodar as pessoas à sua volta, o que aconteceu. Queria que fosse como tinha sido com Ana Rosa Naves, sua tia, tratada carinhosamente como Sindoca, que também não se casou e criou os seis filhos dos dois irmãos mais novos: primeiro, ajudou a irmã caçula, Anéia Naves, a cuidar dos três filhos menores quando o marido dela, Vicente Fernandes da Silva, faleceu em outubro de 1937, aos 36 anos, dois meses antes do nascimento da caçula Vicentina, em dezembro; e depois do irmão, Manoel Naves de Oliveira (Neca), cuja esposa, Clarinda Melo, faleceu em 1943, deixando o caçula com cinco anos. “Cuidou, com muito amor e carinho, desses seis sobrinhos como se fossem filhos dela”, que faleceu de infarto, aos 90 anos. Em 1991.
“Viveu como quis, morreu como quis”, lembra a sobrinha Paula Pena Naves Rocha, que também morou em sua residência, graduou-se em Administração e Decoração, e tem uma loja de presentes em Monte Carmelo.
Com o bisneto Rafi
Ajudou a criar as duas sobrinhas, Názara e Simone, que foram morar com ela para estudar. Quando se casaram e tiveram os filhos, Názara teve Raphael e Danilo e Simone Anarosa e Ana Júlia, Dorinha ajudou a cuidar dos filhos delas para que pudessem trabalhar. Depois ajudou a cuidar dos filhos do Danilo (Rafí e Matias) e ainda ajudava a cuidar da filha do Raphael (Helena, de um ano e meio), quando veio a falecer.
A missa de sétimo dia pela alma de Dorinha será nesta quinta-feira, dia 28, às 18h, na Capela Nossa Senhora das Dores (Colégio Nossa Senhora), em Uberlândia.
União
Tudo na formação de Dorinha a levou a se manter muito ligada à família, sempre acolhendo e servindo a todos. Desde cedo uma educadora, sua casa era uma referência e onde todos se encontravam.
“Veio para servir”, relata Simone Naves Bernardes Costa.
Os relatos começam pelos avós maternos, José Naves de Oliveira e Luiza Rosa Naves, que eram primos, nasceram em Monte Carmelo, se casaram em 1889 e tiveram quatro filhos: Ibrantina, que nasceu em 1900 e faleceu ainda criança; Sindoca, em 1901; Neca, em 1903; e Anéia, em 1906.
A caçula se casou com o conterrâneo Vicente Fernandes da Silva em 1929 e tiveram três filhos: Sebastião, em 1930; Dorinha, em 1935, e Vicentina (Preta), em 1937. Quando Vicente faleceu, Sebastião ainda não tinha completado sete anos, Dorinha, cinco, e Preta nasceria dois meses depois.
Manoel se casou com a conterrânea Clarinda Melo e tiveram três filhos: Lívio, em 1934; Ronald, em 1935; e Renilde, em 1938. Clarinda faleceu em 1943, o que levou as duas irmãs de Neca, Sindoca e Anéia, a ajudá-lo na criação dos três filhos, que se juntaram aos três primos.
Aneia faleceu 12 anos depois, aos 49 anos, quando sua caçula, Preta, ainda não tinha completado 18 anos. Quem assumiu sozinha sua posição foi a irmã mais velha, Sindoca, que já a ajudava na criação de seus filhos e dos três sobrinhos, e passou a cuidar dos seis, carinhosamente, como uma mãe, até se tornarem independentes.
Sempre ao lado dos sobrinhos, Ana Rosa residia em Monte Carmelo e se dedicou integralmente nessa missão, da qual se desincumbiu muito bem, de cuidar da casa, levá-los para a escola, auxiliá-los em suas tarefas, acompanhá-los nas idas ao médico, à igreja e o que fosse necessário, e se tornou um exemplo para Dorinha. Mais tarde, ela manteria essa rotina.
Dorinha e Preta estudaram, tornaram-se professoras, lecionaram em sua cidade natal, Monte Carmelo, dirigiram escolas, e levaram um pouco dessa função para casa, para orientar os primos e sobrinhos.
Aposentadas no Estado, prestaram concurso público e foram aprovadas para lecionar na Universidade Federal de Uberlândia, onde seguiram a carreira do magistério superior, concluíram o mestrado e se aposentaram antes de terminar o doutorado.
A casa delas era o ponto de encontro dos parentes e acolhia a todos, inclusive os amigos, que íam a Uberlândia para resolver os mais diversos problemas, desde tratamento médico a estudar. No almoço, sempre, tinha em torno de 20 pessoas, todos os dias. A residência fazia divisa, no fundo, com a do primo/irmão Lívio Melo Naves, com quem foi criada. Tinha uma piscina, que servia de atrativo, e uma biblioteca, e o rigor, ao utilizar os dois espaços, exigia bom desempenho escolar.
No apoio a essa movimentação, a presença, por 50 anos, da cozinheira Maria Tereza de Oliveira, que sempre mereceu a maior atenção de todos. Inclusive para identificar seu pai biológico, um fazendeiro, o que lhe permitiu ganhar uma parte da herança dele e poder adquirir carro e casa própria. Em determinado momento, estimulada, Tê, como era tratada, fez o magistério na Escola Estadual de Uberlândia e começou o curso de Pedagogia na Associação Brasil Central de Educação e Cultura (Abracec), que não concluiu. Trabalhou na Souza Cruz, casou-se, o marido não a deixou continuar na empresa e logo o casamento acabou. Voltou a trabalhar para Dorinha, onde ficou até agora.
A casa em que Dorinha morou esse tempo todo era uma espécie de Embaixada de Monte Carmelo em Uberlândia, onde os parentes e amigos mais próximos sempre apareciam em suas visitas à cidade.
Não se quantificou quem morou ali. Foram centenas.
O médico Paulo César Naves Borges, 71 anos, conviveu com Dorinha desde que ela se mudou para Uberlândia, e não aceitava a perda da prima e madrinha de seu filho Guilherme César Naves Borges. Tinha visto os exames que ela fez recentemente e os resultados eram bons.
Na sexta-feira, dia 22, pela manhã, conforme relatos, ela esteve na academia e no salão de beleza para cortar o cabelo.
Ainda emocionado ao falar de Dorinha, Helder lembra de quando fazia o primeiro ano colegial, 1975. Suas notas em Física eram péssimas. “Ela e a Preta me chamaram para uma conversa. Com delicadeza, mas severa, me disse: ‘Você não é rico e nem vai ter herança. A única forma de vencer na vida é estudando’”.
Estudou e se formou em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. “Sou grato às duas pelos ensinamentos de vida que me orientaram. Tive a grata satisfação de dizer isso a ela em vida. E ela, como sempre, me dizia ‘Bobagem, Hélder. Só estava ajudando’. Ajudou-me muito mais, e sempre demonstrei minha gratidão a ela”.
Para a médica Ana Júlia Naves Bernardes Costa “é impossível colocar em palavras o que a tia Dorinha representava para mim. Era meu tudo! Não conheço outra pessoa que chegue aos pés. Sempre sorridente, sempre mesmo! Aquele sorriso enorme que vem da alma”. “Amava conversar, sobre qualquer assunto, especialmente sobre a família”, afirmou. “Ela não só ajudava a todos o tempo inteiro, como ajudava inclusive quem não gostava dela (ainda não sei o que se passa na cabeça de alguém que não gostava dela. Que gente triste, que pena!), mas, enfim, ela ajudava essas pessoas. Detalhe: ajudava feliz, feliz. Queria facilitar e contribuir na vida de alguém”.
“Sempre ativa, caminhava uma hora todo dia. Toda semana um livro de mil páginas, diferente. Subia e descia a escada 400 vezes no dia, sempre recebendo visitas e atendendo ligações, mil delas sendo minhas. Coitada, eu não deixava ela em paz!”, relatou Ana Júlia. “Enfim, não consigo escrever mais, pois as lágrimas não param de cair. Que ser humano! Que sorte de quem a conheceu! Para sempre no meu coração. Muito mais que uma segunda mãe e uma melhor amiga, era minha base, era meu anjo”.
Para o sobrinho Raphael Borges Naves, sua tia estaria muito feliz com todas as demonstrações de carinho. “Nunca conheci e não vou conhecer um ser humano com tamanhas qualidades!”.
“Acredito que nunca pensou nela, apenas no próximo. Era o cotidiano dela. Fez tanto, para tanta gente, sem pedir nada em troca”, escreveu. “Qualquer pessoa que ela conhecia já procurava ajudar de alguma forma, sempre. Por isso tantas pessoas se encantaram com ela. Sua falta será irreparável”.
Como criou muitos sobrinhos, eles sempre iam visitá-la.
Registros de agradecimento
Educadora, deixou saudades por onde passou, como registraram as redes sociais. “Foi minha professora de Português nos anos 1960/1970 no Colégio JK em Monte Carmelo. Aprendi a interpretar texto e análise. Excelente profissional, ao lado da sua irmã Vicentina, que era diretora do ginásio”, escreveu Ademir Rocha Cândido. “Minha eterna professora! Ser humano incrível! Foi meu espelho. Fez parte da minha história. Quanto carinho, quanto zelo. Devo muito a ela. Segui seu exemplo”, registrou Ana Lúcia Rabelo. “Que triste notícia! Tenho bonitas lembranças de dona Dorinha quando estudei no Colégio Polivalente em Monte Carmelo”, anotou Leila Nery. “Foi minha professora na terceira e quarta séries na Escola Melo Viana”, recordou-se Sebastiana Melo. “Foi minha professora. Muito querida por mim e por todos”, gravou Edson Pena.
Marilane Codorna pontuou: “O céu hoje está em festa, no encontro de tantos irmãos e familiares, que comemoram a chegada da tia Dorinha! Queridíssima, exemplo marcante em todas as vidas que ela tocou. Luz para você tia Dorinha!”. “Que ela vá para o Caminho da Luz com a proteção de Jesus! Minha professora, sempre foi maravilhosa!”, agradeceu Ilma Fernandes Novaes. “A saudade dói. Em sua caminhada muito nos ensinou, seu caminho novo é resplandecente, luzzzzz!”, completou Cristina Veloso. Anginha Vieira: “Fui sua aluna. Excelente professora, pessoa maravilhosa. Que no seu retorno à espiritualidade seja acolhida com todo carinho”.
“Minha prima Dorinha, que Nossa Senhora te receba com carinho de mãe na Glória de Deus. Gratidão eterna pelo carinho com que me recebeu em sua casa, quando ainda morava em Monte Carmelo. Descanse em paz”, anotou Viviam Luiz Cardoso. Heloísa Machado Naves: “Dorinha irá fazer muita falta a todos nós! Em um lugar muito bonito ela está celebrando seu retorno à Pátria Espiritual!”.
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