Tese de Doutorado de Kalyne Menezes resgatou a contribuição da Projornal (Foto de Nelson Santos)
Mais do que uma alternativa no mercado de trabalho, a Cooperativa dos Jornalistas de Goiás (Projornal) foi a materialização de um sonho de jornalismo independente em relação à produção editorial. Foi planejada para atuar em diversas frentes – na Agência Projornal, no “Jornal de Deboche” e na edição de periódicos, livros e outros materiais jornalísticos. A afirmação é da jornalista Kalyne Menezes que, ao fazer o doutorado em Comunicação na Universidade Federal de Goiás, decidiu conhecer essa iniciativa e, a partir de depoimentos e pesquisas, elaborar a sua tese e preencher essa lacuna que existia na história da imprensa goiana. Com o documento, aprovado pela banca examinadora, conquistou o título de Doutora em Comunicação.
Havia ainda, segundo ela, o projeto de uma gráfica própria, uma hemeroteca e outras fases da Cooperativa que não chegaram a sair do papel. “A entidade visava atender mais do que uma questão financeira, mas uma possibilidade de prática jornalística mais autônoma, que possibilitasse que eles fossem donos de sua produção”, disse. A Projornal era “um berço que acolhia a todos e que representava um projeto no qual os jornalistas não ficariam à mercê das demissões, das grandes empresas, de outras questões que permeavam e influenciavam diretamente a prática jornalística”. Assim, ela “se tornou um espaço de exercício de engajamento político e social que acompanhava os jornalistas. Havia o interesse e objetivo de se fazer uma comunicação mais abrangente, desvinculada de interesses hegemônicos”.
Ao participar da mesa redonda em comemoração aos 60 anos de criação do Curso de Jornalismo da UFG – onde estudou a maioria dos integrantes da Projornal – na quinta-feira, dia 11, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, ela discorreu sobre o seu trabalho e lançou o e-book sobre a Cooperativa, dando livre acesso aos interessados.
Terreno fértil
A obra é o resultado da tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFG, realizada entre 2019 e 2022. Partindo desse trabalho, ao pensar na história da imprensa em Goiás, ela se deparou com lacunas geradoras de possibilidades de investigação histórica, pois, “mesmo com os avanços dos estudos acadêmicos, ainda há um caminho oportuno e considerável a ser percorrido nessa área”. Nessa trajetória de escrita e documentação, dentre as possibilidades de temas de estudo disponíveis, um se mostrou necessário para esta investigação, já que há carência de registros ou estudos acadêmicos mais aprofundados sobre ele. Assim, decidiu conhecer a Cooperativa dos Jornalistas de Goiás Ltda. (Projornal), experiência das décadas de 1970 e 1980 que englobava um contexto final de ditadura militar e de reabertura democrática no Brasil.
“Foi uma semente que encontrou terreno fértil para ser plantada”, disse, explicando que um grupo de jornalistas, face ao cenário de alto desemprego em Goiás, de censura do regime militar e de restrições empresariais que limitavam o exercício profissional, teve a primeira atitude para esse plantio: propôs-se a discutir esse contexto e viabilizar uma ação coletiva para a categoria. “Após seu plantio, cercado por dificuldades e percalços, a Projornal brotou e nasceu com um propósito bem definido, com expectativa de seus sócios-fundadores que carregavam a vontade de executar um projeto independente e alternativo de jornalismo em Goiás”. Por isso, “a semente não apenas brotou, mas cresceu e reverbera ainda hoje no jornalismo em Goiás e no Brasil”.
Aquele 12 de dezembro de 1978, no auditório da Emater-Goiás, representou não apenas a fundação oficial da Cooperativa, mas o início de um projeto único e, até então, oculto na história do Jornalismo em Goiás e no Brasil. “Na primeira vez em que soube de alguma informação sobre a Cooperativa dos Jornalistas de Goiás ainda não tinha a dimensão da atuação e da importância dessa experiência de jornalismo para o Estado e para o país. Além disso, estudar a Projornal me fez perceber muitas variáveis envolvendo uma classe profissional na qual estou inserida e um modelo, o Cooperativismo; e essas variáveis que impulsionaram a criação da cooperativa serviram como motor para unir pessoas, de diferentes pensamentos, em prol de um coletivo”.
A capa do livro de Kalyne
Projeto alternativo
As entrevistas realizadas fomentaram ainda mais esse debate, e contribuíram para evidenciar que, diante de situações extremas e/ou específicas, as pessoas podem se unir, discutir e encontrar, juntas, alternativas de melhorias relacionadas a urgências de uma atuação profissional condizente com suas convicções. Nesse sentido, “uma força histórica acompanhou o ideal da Cooperativa, bem como sua atuação e, por isso, fez-se necessário dar o devido lugar privilegiado e de destaque à Projornal na História da Imprensa goiana e brasileira”, afirmou.
Com base na história narrada, a Cooperativa foi um projeto alternativo e independente de jornalismo em Goiás, desenvolvido entre 1978 e 1988. Sua atuação foi motivada não apenas para ocupar um lugar de mercado, mas sobretudo para preencher esse espaço de uma maneira que os jornalistas envolvidos acreditavam que seria a mais próxima do que consideravam um “jornalismo de verdade”, livre, que pode ser entendido como a prática acompanhada de uma função social que está impregnada no próprio jornalista, “na sua tribo, no ethos profissional”. Por isso, desde a concepção do projeto, tem-se a sinalização de uma atuação livre de partidarismos e de arranjos econômicos que pudessem dificultar o livre exercício da profissão conforme seus cooperados acreditavam que tinha que ser.
A Cooperativa dos Jornalistas, conforme Kalyne, foi um reflexo de uma categoria profissional, com seus valores, discursos e ideologias, impregnados na produção jornalística em diferentes formas e apresentações. “De alguma maneira, todos os cooperados da entidade sofreram com a censura política e econômica, viram colegas serem perseguidos e mortos pela ditadura militar ou até mesmo fizeram parte dos jornalistas presos e/ou torturados nos porões da repressão”. Eles abraçaram e compraram a ideia da Projornal seguindo um anseio nacional de uma alternativa de atuação jornalística, mas, ainda, de um espaço para colocarem em prática a visão de mundo que tinham e acreditavam.
“É por isso que nos deparamos com tantas formas que a Cooperativa encontrou para dar voz à população e às suas demandas. Seja denunciando torturadores e contando histórias de perseguidos políticos pela ditadura militar e “debochando” da sociedade e da época em que o país vivia por meio do “Jornal de Deboche”; seja dando suporte e apoio às necessidades dos movimentos sociais e populares; seja tendo um papel ligado à educação para a comunicação, por meio de pequenas publicações e assessorias desenvolvidas para as mais variadas entidades que passaram a compreender o poder simbólico da comunicação”.
Prática social
A Cooperativa, como argumentou, não foi apenas um meio para que os movimentos pudessem “falar”, mas, sobretudo, terem acesso ao fazer comunicacional por meio do diálogo e da atuação conjunta. “A TV Ambulante e as ações de comunicação comunitária são reflexos dessa atuação, bem como a necessidade de se levar esse lado social do Jornalismo para a formação universitária dos jovens profissionais”. “É por isso que, sendo visionária, mesmo sem ter inicialmente esse objetivo, a Projornal influenciou a formação jornalística desde a sala de aula da UFG, ditando a necessidade de uma formação e uma prática mais dialógica, mais ampla e de formação social do jornalista. A comunicação comunitária passou a integrar os currículos do Curso de Jornalismo, seguindo uma tendência nacional de formação profissional”.
Para além disso, a Projornal representou uma importante escola prática de jornalismo, e já previa em seu estatuto o acolhimento dos estudantes. Seus fundadores tinham consciência, desde o início, da necessidade de uma inserção profissional de mão de obra e de uma recepção apropriada desses estudantes no mercado de trabalho. “A entidade foi, portanto, importante escola técnica e de vida, na qual todos os profissionais que passaram por lá se recordam”. “Muitos iniciaram a carreira jornalística na Cooperativa e aprenderam a prática do jornalismo por meio da produção de jornais e produtos diversos”. Muitos nomes do jornalismo goiano passaram pela Projornal, revelando que a experiência da entidade foi essencial tanto para os profissionais que já atuavam no mercado, com nomes consolidados, como para os recém-formados que tinham, além de um campo de atuação, a oportunidade de aprendizado com os jornalistas mais experientes.
Ao narrar essa história, foi possível levantar não somente os fatores e contextos que levaram à concepção da Cooperativa dos Jornalistas, situando o lugar e tempo dessa experiência para a história da imprensa goiana, como também contribuir para o estudo da memória da própria sociedade goiana. Há estudos sobre cooperativas de jornalistas em outros estados, a exemplo da Coojornal, do Rio Grande do Sul, mas a experiência goiana continuou silenciada por mais de 40 anos. Por isso, este livro, que é fruto da sua tese de doutoramento, contribuiu significativamente para preencher essa lacuna histórica. “Além disso, a experiência da Projornal é pouco conhecida ou desconhecida pelas gerações mais jovens de jornalistas, e acredito que os frutos do presente estudo são de extrema relevância para contar essa história e reafirmar o compromisso de torná-la pública, servindo como modelo de inspiração de prática de Jornalismo”.
Visibilidade
A Projornal, de acordo com Kalyne, realizou projetos que reverberam no Estado de Goiás e no país até hoje, e é preciso dar visibilidade a isso. Além disso, considerando que a história do presente e do futuro é uma continuação, repetição, reflexo e desdobramento de uma história do tempo passado, “entendemos que a Projornal reflete ainda hoje para as novas formas de pensamento e ação”. “Hoje vivemos e presenciamos movimentos diversificados que estão, de alguma maneira, relacionados às práticas alternativas de comunicação, e a história da Projornal aponta e reforça a necessidade de se apostar em um projeto coletivo. Isso porque a Cooperativa foi um projeto que deu certo, teve resultados positivos e marcou uma época”.
Com toda a produção que foi possível levantar, “posso afirmar que ela teve impacto regional gigantesco e que, somados seus produtos, eles alcançaram grupos diversificados, em quantidade e em qualidade de conteúdo jornalístico e informacional”, afirmou.
As narrativas dos veículos de comunicação e de jornalismo são produtos históricos com referência social e cultural e, por isso, são registros documentais que perenizam narrativas, discursos e memórias. “Ademais, como possibilidades a partir deste estudo, sugerimos uma política pública mais eficiente em relação à criação e manutenção de arquivos e hemerotecas estaduais em Goiás, e vemos possibilidades de executá-las junto ao poder público estadual, às instituições como museus e institutos de arquivos e documentações, e à própria Universidade Federal de Goiás”.
https://aredacao.com.br/projornal-foi-a-materializacao-do-sonho-de-jornalismo-independente/

