Odon de Morais em 2001

Herdeiro político de seu pai, José Rodrigues de Morais Filho, que era muito ligado aos Caiado e chegou a Senador estadual, Odon Rodrigues de Morais marcou a sua trajetória política pela seriedade, honradez e honestidade. Um tipo de político em extinção, do qual muito se orgulhava. Atuou apenas como Vereador, durante 16 anos na Câmara Municipal de Goiânia, tendo sido Presidente em duas oportunidades, e só não foi eleito Deputado Estadual devido à traição de companheiros da então Aliança Renovadora Nacional (Arena), o que o fez abandonar, para sempre, a atividade partidária. Aposentado no Setor Público, levou uma vida tranquila e despreocupada, com a cabeça erguida. “Tenho orgulho de tudo que fiz. Nunca conseguiram manchar minha reputação”, gostava de repetir. Faleceu no dia 11 de fevereiro de 2012, aos 94 anos, vítima de pneumonia.

Entremeando a atividade política com o desempenho de funções públicas e privadas, foi de uma época em que os políticos davam muito de si e de seu patrimônio no exercício da atividade pública. “Ao contrário de hoje, quando estamos enojados de ver denúncias de enriquecimento ilícito de políticos”, disse. Sua família doou grande parte das terras onde se assenta Goiânia e ele juntou um pequeno patrimônio, diante da força econômica que sua família possuiu. No final da vida, ele morava em apartamento no Setor Oeste com a mulher, Adelaide, e a filha caçula, Ana Maria Morais, depois de residir toda uma vida numa ampla e confortável casa na Avenida Geraldo Nei, no bairro de Campinas.

Odon se destacou nas articulações políticas pela forte argumentação legal – autodidata, teve uma excelente escola que foi sua passagem pelo Cartório do 2° Ofício de Goiânia, do tabelião Públio de Sousa, onde aprendeu muito lendo e convivendo com advogados e especialistas em legislação – e pela facilidade de relacionamento, logo conquistando os seus colegas. Presidiu o Legislativo goianiense em duas oportunidades e como Vereador propôs a concessão de apenas dois títulos de cidadania goianiense: para Buhran Helou, uma pessoa que considerava correta e fora do comum, e para Milton, o primeiro barbeiro que se mudou para Goiânia, vindo da Bahia, que morreu com quase 90 anos de idade. Tinha o Salão São Paulo, no bairro de Campinas, e era famoso: as pessoas faziam fila para serem atendidas.

O relacionamento da Câmara Municipal com a Prefeitura de Goiânia, desde o início, foi marcado por muitas desavenças. A história deixa transparecer que o Legislativo goianiense se sentia na obrigação de ser totalmente independente do Poder Executivo. “Os adversários políticos eram inimigos de fato, mas em torno das questões que beneficiavam a comunidade a disputa era deixada de lado”, frisou.

Campineiros

Natural do então município de Campinas, que deu origem a Goiânia e depois foi incorporado à nova Capital goiana, Odon nasceu no dia 15 de maio de 1917. Era o nono dos 11 filhos de Morais Filho e Ana Nunes da Costa Morais – seu pai nasceu em Silvânia, GO, no dia 6 de agosto de 1873, sendo filho de José Rodrigues de Morais, fazendeiro, e de Anna Luiza Rocha, naturais de Luziânia, GO, e descendente do primeiro filho do casal de portugueses que se radicou na região; e a mãe, filha de Camillo Nunes da Costa e Maria Isabel Barbosa, era de Anápolis, GO, e morreu no dia 9 de abril de 1945.

Seus irmãos, todos assinando Rodrigues de Morais, também nasceram em Campinas: José Rodrigues de Morais Neto (Zequinha), no dia 3 de agosto de 1900; Maria Benedita, em 1902; Riolando, no dia 13 de agosto de 1904; Leontina, no dia 28 de outubro de 1906; Amélia, no dia 28 de dezembro de 1909; Enoy, em 1911; Ana, em 1913; Fany, no dia 28 de abril de 1915; Rui, no dia 8 de setembro de 1919; e Maria de Lourdes, no dia 21 de dezembro de 1921.

Ainda criança, Odon ajudava o pai na fazenda, levando gado e cavalos no pasto. Ele fez o curso primário no Colégio Santa Clara, de 1928 a 1930; como a escola era a única que vendia livros, quando foi comprar os do segundo ano já haviam acabado e teve que comprar os do terceiro, o que o obrigou a cursar as duas séries numa só. Em 1931, como o pai não era mais chefe político, deixou de estudar. Um amigo de seu pai, Honestino Guimarães – “um homem inteligente e culto, farmacêutico, que estava distante e que, depois da revolução de 30, escreveu uma carta esculhambando com Licardino de Oliveira Nei, quando reatou a amizade com meu pai” – abriu uma escola na casa dele, que tinha meia dúzia de alunos, como o filho de Otávio Lúcio, Pedro Lúcio, e convidou Odon a estudar lá, criticando o seu pai, que “só cuida de política”. Na época Campinas não tinha grupo escolar e como os filhos de Honestino estudavam na antiga Capital, convidou-o a morar com eles na antiga Vila Boa e lá freqüentar o Liceu. Mas Honestino logo morreu e esse sonho acabou. Foi por outra amizade de seu pai, o chefe político de Trindade, Antônio Batista, que conseguiu uma vaga no grupo escolar daquela cidade, onde fez o admissão.

Quando voltou de Trindade, no ano seguinte, foi direto para a fazenda Arranca Toco, hoje Jardim América. Um dia, em 1936, recebeu a visita do irmão do Altamiro de Moura Pacheco, Edson, farmacêutico, que era casado com uma prima, filha do seu tio Aurélio, e o convidou a trabalhar na farmácia, que ficava na Avenida 24 de Outubro. Concordou, mas pediu que falasse antes com seu pai, que o liberou. Ali ficou um ano, pois em 1937 foi fazer Tiro de Guerra, que tinha sede em Anápolis e uma unidade em Goiânia. Lá tornou-se amigo de um rapaz, Geraldo Bastos, que trabalhava na Prefeitura de Goiânia, quando solicitou-lhe que conseguisse um emprego para ele. “A Prefeitura ficava numa casinha de tábua quase na beira do córrego Botafogo”. Conversou com o prefeito Venerando de Freitas Borges e não demorou muito a trazer a informação: não poderia contratá-lo porque não tinha instrução. A sugestão foi nomeá-lo como auxiliar de servente, que aceitou de imediato. O salário correspondia a 60 mil réis. Acabou fazendo de tudo. Como na Prefeitura não havia instalações sanitárias, deveria limpar o local depois do expediente, e só saia depois das 20 horas.

Após a morte do pai, em 1940 foi ao Cartório do Públio de Sousa buscar informações sobre o inventário, conversaram sobre trabalho, quando recebeu convite para trabalhar naquele local. Odon explicou que fazia Tiro de Guerra e que, tão logo terminasse, ele se apresentaria, o que ocorreu no ano seguinte, e ali ficou até 1947, quando decidiu entrar para a política. “Públio gostava muito de mim e propôs que, se ficasse mais 10 anos, ele me transferiria o Cartório”. Com a redemocratização, ficou entusiasmado com o discurso oposicionista de Jalles Machado, José Fleury e Alfredo Nasser e optou pela política.

Brigas políticas do início

A sua primeira opção partidária foi a União Democrática Nacional (UDN). Em 1946 o partido tinha como candidato a Prefeito de Goiânia o médico Augusto França Gontijo, “pessoa conceituada, mas devido a problemas familiares renunciou à candidatura”. Diante dessa situação, o presidente do partido, Salomão Clementino de Faria, reuniu o Diretório, expôs o problema e sugeriu que cada um fizesse indicações para uma nova definição. Odon se lembrou de Públio de Sousa, “que era uma pessoa honesta, correta e vinha de uma administração elogiada como Prefeito de Catalão”; conversou com ele e o convenceu a aceitar ser candidato. Ele concordou. Em seguida, “apresentou o nome dele, mas Salomão não aceitou, dizendo que não servia, pois se fosse eleito e o visitasse na Prefeitura não permitiria que ele botasse os pés na mesa”. Odon ficou numa situação difícil, procurou Públio, explicou o que aconteceu e disse que o acompanharia se ele quisesse ir em frente. Ele aceitou disputar a eleição. Seriam três candidatos: a UDN decidiu lançar o irmão de Pedro Ludovico, João Teixeira Álvares Júnior; o Partido Social Democrático (PSD) lançou Eurico Viana; e eles teriam que buscar uma terceira alternativa – a solução foi o Partido Republicano (PR), que era presidido por Togo Gomes de Almeida, que morava no Rio; conversaram e marcaram um encontro em Goiânia, quando decidiram, de última hora, pelo lançamento da terceira candidatura à Prefeitura de Goiânia. Vieram as eleições, Eurico Viana ganhou, mas Públio teve a maior votação em Campinas. O partido fez dois vereadores: Odon e Germano Roriz. E tudo virou contra eles.

Nessa eleição a UDN havia coligado com o Partido Comunista (PC) – que elegeu dois vereadores, José Nonato, o mais velho entre os eleitos, e Alberto Xavier de Almeida – e conquistou seis cadeiras na Câmara Municipal: José Rodrigues Naves Júnior, representando o distrito de São Geraldo, Ana Pereira Braga, Edwaldo Athayde Cavalcante, José Fernandes Peixoto, Milton de Souza Mendonça, representando Hidrolândia, e Delfino Moreira, fazendeiro de Guapó. O PSD elegeu Julieta Fleury da Silva e Souza, a mais velha, Agenor Rodrigues Chaves, Alípio Gonçalves e Natal Alves de Siqueira. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) elegeu Gil Lino e Nicola Limongi, e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) elegeu Eustórgio Vaz.

Eleito Vereador à Câmara Municipal de Goiânia, primeira Legislatura, no dia 6 de novembro de 1947 teve que abandonar o Cartório, pois a legislação não permitia o acúmulo de duas funções públicas. De início o Vereador não tinha salário, mas logo fixaram uma remuneração.

Habilidade política

Já na eleição para Presidente da Câmara Odon mostrou sua habilidade política. Procurado para ser candidato, sabia que a UDN não o apoiaria, por ter rompido com o partido. Como o PTB e o Partido Social Progressista (PSP) o procuraram, já somando sete votos, viu que ainda não dava para ganhar a eleição. Procurou então o vereador José Fernandes Peixoto, que era seu amigo e sabia que se ele prometesse teria votos suficientes para ganhar, e decidiu disputar a eleição. No primeiro escrutínio alguém votou em branco e houve empate. O candidato da UDN, Milton Mendonça, descobriu, e no segundo escrutínio perdeu: 9×8. A Mesa Diretora assumiu em dezembro e teve mandato provisório, apenas para organizar o funcionamento da Câmara Municipal, como elaboração do Regimento Interno e outras providências. Ficou definido o mandato de um ano para a Mesa Diretora, convocando nova eleição para abril de 1948; já ambientado e se relacionando com todos, não teve dificuldades de se eleger e reeleger em 1949. Em 1950 decidiu apoiar o candidato da UDN, houve debates, o PSP não apoiou e na disputa o vereador udenista José Rodrigues Naves Júnior ganhou.

Reeleito para a Câmara Municipal em 1951 logo sentiu as mudanças e que era minoria. O PC fez só um vereador, Sebastião de Abreu, que votava com a oposição, o que dava equilíbrio nas decisões. Já nos primeiros meses “o vereador mais votado do PSD, que havia sido eleito Presidente, arrumou emprego no Banco do Brasil no Rio de Janeiro, renunciou e foi embora”. Com isso, houve nova eleição. Eleito Presidente, Cláudio das Neves, do PTB, “todo rompante, decidiu reformar o Regimento Interno, por considerar que favorecia a oposição e nomeou uma comissão, de cinco membros, sendo quatro da situação e apenas eu pela oposição”. Já tarimbado e conhecendo a fundo a legislação, logo conquistou os colegas pelo domínio da área. Apresentou novas sugestões, melhorando ainda mais o documento, e todas foram acatadas, inclusive firmando compromisso com a maioria para assegurar a sua aprovação. “O Presidente descobriu e ficou bravo, dizendo que o Regimento Interno tinha piorado, e abriu uma crise na Câmara Municipal”. Esse quadro novo exigiu um posicionamento dos vereadores, tendo Odon se articulado com seus colegas, inclusive alguns da situação, que eram independentes, como o José Monteiro, um fazendeiro rico, e depuseram o Presidente, quando decidiram eleger um novo Presidente, recaindo na pessoa do vereador João de Paula Teixeira Filho, conhecido como Parateca.

Lembra ainda de outro episódio no qual teve participação ativa. Em 1951, o prefeito Venerando de Freitas Borges mandou um projeto de Código Tributário que a oposição, cuja bancada Odon liderava na Câmara, decidiu não aceitar, fazendo proposições, apresentando emendas, pedindo vistas até o último ano do Governo. Na última votação, Venerando conseguiu a adesão de um vereador. Seu amigo, José Monteiro, denunciou a traição, e Odon foi embora, preocupado, certo de que a oposição perderia a votação no dia seguinte. Mas não se deu por vencido. Juntou exemplares das Constituições Federal e Estadual, da Lei Orgânica do Município e outros documentos legais e foi para casa. Ficou até de madrugada lendo, revisando o Código e na Constituição Estadual descobriu uma brecha, um artigo que definia a maioria como quorum para votação de questões tributárias. A Câmara Municipal funcionava na Av. Anhanguera, e para lá se dirigiu momentos antes do início dos trabalhos. A movimentação era intensa, inclusive com a presença de Venerando e todo seu secretariado. Quando o presidente, Luiz Contart, do PSB, leu o projeto e anunciou que o Código estava aprovado, Odon, como líder da bancada da oposição, questionou o sistema de votação, que estava baseado no Regimento Interno, quando aquela matéria exigia um quorum especial. Feitas as devidas consultas e novamente colocando o projeto em votação, foi rejeitado. Venerando, reconhecendo a derrota, foi cumprimentá-lo, dizendo que se tivesse um líder como ele a aprovação do projeto seria tranqüila.

Na época, apesar da falta de praticamente tudo, como água – havia uma caixa d’água no Setor Coimbra que abastecia a região” –, esgoto e asfalto, o vereador tinha seu trabalho limitado. “A Prefeitura não tinha dinheiro”, lembra, para destacar que lhes sobrava cumprir a rotina de reivindicar a limpeza e patrolamento das ruas, esburacadas. “Quando o Parateca foi Prefeito, o pessoal se uniu, pediu uma reunião com ele e reivindicou asfalto. Ele disse que queria fazer a obra, lamentou não ter condições de executá-la e sugeriu que as pessoas se organizassem, cotizando para conseguir o dinheiro necessário para esse trabalho. Assim foram feitos os primeiros asfaltamentos de ruas”, disse. Ele mesmo foi um dos primeiros: reuniu os moradores da Av. Geraldo Nei, sensibilizou-os para a importância do asfalto, conseguiu o dinheiro e a obra foi a primeira a ser realizada, até a Praça Joaquim Lúcio; a Av. Anhanguera já estava sendo asfaltada nessa época. Isso acabou gerando críticas e a ciumeira, pois achavam que o Prefeito o estava protegendo, ao fazer a obra primeiro em sua rua. Ele teve que explicar a todos como havia conseguido o asfalto e a partir daí as pessoas começaram a se organizar para obter o asfaltamento de suas ruas.

O ex-prefeito de Campinas, Licardino de Oliveira Nei, fora adversário político de seu pai, Morais Filho, mas acabou virando amigo e eleitor de Odon que, como vereador, prestou uma das poucas homenagens da cidade à família desse pioneiro: deu o nome do filho de Licardino, Geraldo Nei, um advogado que morreu ainda novo, à rua em que morava, no bairro de Campinas.

Atividades empresariais

Em 1954 Odon se candidatou a Deputado Estadual, mas por quatro votos não conseguiu se eleger. Como não ganhava dinheiro na política, “só gastava”, passou a se dedicar a atividades empresariais, durante oito anos. Primeiro, “entrei em sociedade numa farmácia, negócio que toquei durante três anos e que não deu certo. Logo decidimos romper a sociedade, mas a outra parte não tinha como pagar, quando recebi, por orientação do contador, uma casa velha e uma chácara próxima do córrego Anicuns, que nem fui conhecer, vendendo-a para o próprio contador”. Em seguida, montou um bar, onde ficou até 1962.

Nesse ano, eleito Prefeito de Goiânia, o médico Hélio Seixo de Brito, que era seu amigo, o procurou para voltar à política, explicando que estava encontrando muitas dificuldades para administrar a cidade e precisava de pessoas de confiança para ajudá-lo. Sua mulher, Adelaide, não quis que ele entrasse novamente na política, falou muitas coisas desagradáveis para o dr. Hélio, e eles ficaram de voltar a conversar. Na segunda conversa, a decisão já estava tomada, e Odon candidatou-se novamente, sendo eleito.

A Prefeitura Municipal era um Departamento do Estado, não tinha autonomia. “Hélio de Brito, aos poucos, foi conseguindo superar os problemas e criar uma pequena estrutura administrativa”. Com o então governador Mauro Borges Teixeira obteve a transferência para a Prefeitura de algumas atividades, “não as que queria, mas as possíveis, pois recebeu, de imediato, apenas as mais onerosas. As dificuldades continuavam, os salários dos servidores municipais estavam atrasados e o Prefeito era constantemente ameaçado, diante das muitas dívidas, e muitas vezes despachava de casa com medo de ir à Prefeitura”. Lembra que, nessa época, o deputado federal Antônio Rezende Monteiro, do PTB, procurou o dr. Hélio, para uma composição: queria apoio ao presidente da República, João Goulart, em troca de um empréstimo no valor de dois milhões de cruzeiros para a Prefeitura de Goiânia ter condições de realizar um grande conjunto de obras. O empréstimo foi encaminhado mas demorou muito a sair. “O dinheiro, em duas parcelas, saiu para o Governo do Estado, para repassar à Prefeitura, mas teve apenas uma liberada, quando os militares assumiram o Poder – com esse hum milhão foi possível organizar a casa, pagar os servidores e atualizar as dívidas, em especial o trabalho de saneamento básico, que foi a principal preocupação do dr. Hélio. Ele entregou a Prefeitura estruturada, enxuta e sem dívidas”.

Íris Rezende foi o sucessor de Hélio de Brito na Prefeitura de Goiânia e a situação fez 12 dos 17 vereadores, “mas a oposição era atuante, mostrava os problemas da cidade”. Com isso, veio a retaliação, e a primeira vítima foi a mulher de Odon, Adelaide, que era diretora de um grupo escolar e foi demitida. Todo dissimulado, o vereador Evaristo Martins, do então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), procurou-o para lamentar a demissão, dizendo que conversaria com o Prefeito, “que não está sabendo do fato”. Odon recusou a ajuda, justificando que sua mulher não era do Partido e que o cargo era de indicação partidária.

Quando o encontrava Íris sempre demonstrava alegria e cobrava a sua presença na Prefeitura. Como ambos moravam no bairro de Campinas, um dia o Prefeito ligou para Odon em sua casa, dizendo que estava com o carro na oficina e pediu carona. No carro, passados alguns minutos, explicou que queria mesmo era conversar com ele a sós, pois o considerava muito, pela seriedade como atuava, pelo comportamento ético e pela importante contribuição que dava ao Legislativo e a Goiânia, e propôs uma aproximação. Odon preferiu continuar na sua posição, sem se comprometer politicamente com o Prefeito, pois era do partido de oposição.

O cargo nunca lhe subiu à cabeça. Certa vez, no governo de Otávio Lage de Siqueira, esteve no Palácio das Esmeraldas para uma audiência. Ele e o vereador Altamiro Antão do Nascimento, ambos da UDN. Chegando à recepção, cumprimentou os presentes, anunciou a sua presença, sentou e ficou aguardando ser chamado, enquanto Altamiro foi logo adentrando, sem se anunciar. O militar da recepção perguntou-lhe porque também não entrou e ele lhe disse que preferiria ser chamado. O tenente foi ao Gabinete, anunciou a sua presença e o Governador solicitou que entrasse. “A pessoa perde a autoridade quanto impõe a sua presença. A vida toda fui respeitado e soube respeitar”, disse.

Abandonando a política

Concluído o quarto mandato, em 1970 candidatou-se a Deputado Estadual, tinha sua eleição praticamente assegurada, pelo trabalho que realizou – tinha sido, sempre, o Vereador mais votado de Campinas; inclusive, acertou apoio financeiro ao Diretório de Trindade, mas de última hora, devido à interferências de políticos de seu partido, perdeu esse apoio. Ficou desgostoso com essa traição dentro da Arena e abandonou a atividade partidária.

Nesse ano foi nomeado pelo governador Leonino Caiado para o cargo de Diretor de Obras da Companhia de Habitação de Goiás (Cohab-GO), no qual permaneceu até 1974. Indicado Governador, Irapuan Costa Júnior havia se comprometido com um primo de Odon, Antônio Fábio Ribeiro, de mantê-lo no cargo, mas não cumpriu a promessa.

Eleito Prefeito de Goiânia, Francisco de Freitas Castro o nomeou, naquele ano, Diretor do Departamento de Estradas de Rodagem do Município (DER-Mu), onde ficou até 1980. Em 1981 foi nomeado diretor-geral da Câmara Municipal de Goiânia, ali permanecendo até o ano seguinte, quando pediu aposentadoria. Não mais quis saber de política.

Em 1976 trabalhou pela eleição de seu filho caçula, Bráulio Afonso Morais, que conseguiu uma bonita votação e se destacou na Câmara Municipal, chegando a Presidente e a liderar uma bancada influente no Legislativo goianiense.

Posteriormente, foi novamente chamado para voltar à política, para sair candidato a Vereador, mas impôs uma condição: que fosse nomeado e sabendo, de antemão, quem seriam os demais. “Não queria me misturar com qualquer um. Até não importava se não tivesse remuneração. Considerava o cargo importante, mas que estava sendo muito avacalhado naqueles tempos, com pessoas sem condições de exercê-lo com dignidade”. Lembra que, em 1966, cortaram a remuneração dos vereadores e na época foi difícil encontrar candidatos.

Histórias

Várias histórias na Câmara Municipal de Goiânia, acontecidas com seus colegas, foram presenciadas por Odon.

  1. Perspicaz, ele não deixou passar sem registro na imprensa um fato inusitado que aconteceu quanto foram eleitos pela primeira vez, em 1947. Nessa eleição, a vereadora Maria José Cândido de Oliveira, “conhecida como Maria Lambona, por ser toda atrapalhada”, do PSP, teve votação idêntica à do vereador Agenor Rodrigues Chaves. Então, eles começaram uma disputa judicial para ver quem ficaria com o mandato. Enquanto a decisão não saía, sentava quem chegasse primeiro. Essa briga durou quatro meses e foi decidida pelo juiz Elísio Taveira, que concedeu o mandato a Agenor, que era mais velho. “Aproveitei essa perlenga e enviei uma nota à seção “O Impossível acontece”, da mais prestigiada revista da época, “O Cruzeiro”, que a publicou, pelo inusitado, ressaltando a satisfação do Juiz em julgar, pela primeira vez, uma causa em que a mulher lutava para ser mais velha”.
  2. Natal Alves de Siqueira, irmão de um farmacêutico de Hidrolândia, de muito prestigio, veio da zona rural, era uma pessoa muito simples e, talvez por isso, muito querido pelos eleitores. Ele sempre chegava à Câmara Municipal com os sapatos dentro de um embornal e só os calçava quando chegava às sessões. Tinha um jeito matuto de discursar e foi o mais votado de sua legislatura, pelo PSD.

Família e política

Adelaide e Odon no casamento em 1949

Odon se casou no dia 11 de maio de 1949, na velha Igreja da Matriz de Campinas, com Adelaide Sousa Morais, goiana de Silvânia, onde nasceu no dia 26 de agosto de 1927, e com quem teve cinco filhos, todos nascidos em Goiânia: William Carlos Morais (12.03.1950), que faleceu em 1998; Orlando Lino de Morais (13.07.1951), José Augusto Morais (30.12.1953), Bráulio Afonso Morais (06.09.1955) e Ana Maria Morais (28.09.1963). À exceção de William, os quatro filhos se formaram em Direito: Orlando Lino começou na Prefeitura Municipal de Goiânia, “onde foi funcionário padrão”, e passou em concurso para Juiz de Direito, ficando lotado em Goianápolis, GO, já com tempo para se aposentar; José Augusto assessorava a Câmara Municipal de Goiânia; Bráulio Afonso foi vereador em Goiânia, depois assessor da Diretoria do Legislativo goianiense, Secretário de Estado no Governo Marconi Perillo e presidente do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO); e Ana Maria, advogada trabalhista, foi a primeira mulher a dirigir a Seção de Goiás da Ordem dos Advogados do Brasil, sucedendo o presidente Eli Alves Forte, de quem fora vice-presidente, e também a primeira mulher eleita Conselheira Federal da OAB por Goiás.

Sempre ativa e presente, Adelaide nunca gostou da atividade partidária e nem estimulou seu marido em suas incursões pela política: em várias oportunidades procurou dissuadi-lo de se candidatar. Participando das movimentações e vendo os problemas que ele enfrentava, logo se desgostou com a política e com o partidarismo, “diante do jogo sujo que muitas vezes presenciei, quando traíam meu marido”. Mas nunca deixou de apoiá-lo após a decisão de se candidatar, indo aos comícios, fazendo campanha, discursos inflamados e visitas de casa em casa, telefonando, chegando a ser internada numa clínica, por estresse, numa das últimas campanhas.

Professora aposentada, estudou no Colégio Santa Clara, onde se formou em 1946, cuidou dos filhos e já com eles criado deu seqüência aos estudos, prestando vestibular para Filosofia na Universidade Católica de Goiás, onde se formou. Lecionou na Escola Jonas Siqueira, da Vila Cintra, e no Grupo Escolar Duque de Caxias, dirigiu os Grupos Escolares Henrique Silva e Assis Chateaubriand, ambos em Campinas e depois transformados em colégios estaduais. Ainda, foi orientadora no Colégio Estadual Paulo VI.

Adelaide era filha de Francisco Pereira de Sousa, natural de Anápolis, GO, onde nasceu no dia 18 de fevereiro de 1894, e de Maria de Sousa Morais, que também nasceu em Silvânia, no dia 28 de fevereiro de 1904. Seus avós paternos, João Pereira de Sousa Dutra e Isabel Nunes da Costa, eram de Anápolis, enquanto seus avós maternos, Alexandre Rodrigues de Morais e Seráfia Rodrigues de Morais, eram da região de Silvânia, tendo nascido na fazenda Sozinha, que ficava nas margens do rio que tinha esse nome, hoje no município de Bonfinópolis, GO, que se chamava 36, devido à distância de Goiânia. Primeira fazenda a contar com energia elétrica, tinha serraria e se dedicava à criação de gado. Foi um dos primeiros a ter carro na região – sua avó Seráfia morreu em 1932 e era filha de Pedro Rodrigues de Morais e de Estefânia Cunha Teles.

Católico praticante, nasceu na religião católica, sempre foi à missa aos domingos e, quando solteiro, ajudava os padres em sua visitas de desobriga pelos municípios vizinhos, como Nova Veneza, e nas festas. Participou da Irmandade do Santíssimo.

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