Hospital Lúcio Rebelo/Reprodução

Dinâmica, enérgica e muito focada no trabalho que realizava, a professora Lígia Maria Coelho Rebelo, que faleceu no dia 10 deste mês. aos 99 anos de idade, teve uma trajetória sempre enaltecida por todos, ainda que recebesse críticas pela forma, considerada por muitos, autoritária de administrar. Ela dirigiu o tradicional Colégio Estadual Professor Pedro Gomes por mais de 10 anos, desde o período em que ainda se chamava Ginásio Estadual de Campinas, e que era a principal instituição pública de ensino médio de Goiânia, um exemplo sem precedentes na história de Goiás e, muito provavelmente, do País.

Quando o antigo Ginásio se transformou em Colégio, em 1960, houve a mudança para um local maior, com mais espaço, maior número de salas de aula, novos e qualificados professores e quadra de esportes, como resultado de suas iniciativas. A sua direção sempre manteve a mesma postura: a preocupação em preservar o nome da instituição, seus valores e princípios, e a disciplina de seus alunos, ativos e igualmente com a propósito de promover a escola em suas apresentações, cívicas e políticas.

Quem teve o privilégio de estudar no ‘Pedro Gomes’ em sua época, principalmente na primeira metade dos anos 1960, não a esquecerá, pela forma como conduziu o colégio, como respeitava cada um e como se relacionava com todos.

Com um número significativo de estudantes no início daquela década, em torno de dois mil, constituía-se, nessa época, em centro de debates e efervescência política. Seu centro acadêmico, ativo e dinâmico, realizava muitas iniciativas e era sempre convocado para as movimentações políticas e sociais, favorecendo a participação estudantil nas discussões e nas greves, que liderava. Dentre as reivindicações, o aumento da passagem de ônibus, o custo de vida, melhorias para o transporte público etc.

Na direção do colégio desde 1957, a professora Lígia Rebelo tinha liderança, dialogava com todos, e era uma presença em todos os momentos e espaços do colégio. A preocupação era com a ordem, com o bem estar de todos, com a qualificação do quadro docente, a maioria já formada ou fazendo curso superior, e, principalmente, com a qualidade do ensino, com a atividade em sala de aula, com as aulas propriamente e a participação em eventos importantes. Tinha os melhores professores, a melhor Banda Marcial e conquistava, a cada ano, os maiores elogios e resultados nos desfiles, com belos quadros mostrando os mais diversos temas.

Não havia a ingerência da direção nas eleições para o Grêmio Literário, nem impunha restrições, mesmo demonstrando que indicava alguns candidatos. No início da década, uma candidatura que surgia naturalmente, diante do seu espírito de liderança e de participação, não teve a sua aprovação de imediato. Ela considerava Nelson Lopes de Figueiredo um rebelde, independente e que poderia trazer dificuldades para o colégio, por sua forma de atuar e seus discursos inflamados. Ela preferia o candidato Bernardino Granja Campos, mais cordato e mais próximo dela, mas não tomou partido, nem fomentou a cisão. Deixou que cada um fizesse a apresentação dos integrantes de sua chapa, mostrasse as suas propostas e que a decisão fosse dos seus colegas.

Conhecido o resultado, como democrata que era, recebia os novos dirigentes e estabelecia um diálogo, pois a preocupação era com o colégio. Com Nelson Lopes foi assim: tão logo saiu o resultado, confirmando a sua  eleição, ela o recebeu em seu gabinete, conversaram, buscaram as afinidades, e desejou sucesso em suas iniciativas. Em pouco tempo já tinha boas relações, de amizade, com os integrantes da entidade, e mais especificamente com o Presidente. Essa aproximação, a partir daí, tornou-se mais estreita e se manteve.

Mesmo que tivesse suas preferências nessas disputas, ela não interferia diretamente na formação de chapas, mas dava apoio àqueles que considerava mais próximos. Foi, inclusive, homenageada por um grupo por ela aprovado, que alterou o nome da entidade colocando o dela, em substituição ao anterior, de um advogado, escritor e jornalista paulista.

O hoje empresário Sevan Naves lembra, sorrindo, do fato de ter sua candidatura para o grêmio vetada por ela por considerá-lo “muito traquina”, o que não o prejudicou, pois ele foi eleito diretor da entidade.

Foi realmente muito expressivo o legado de dona Lígia Rebelo, uma educadora símbolo, como enfatizou o “Jornal Opção”, e uma das  mais importantes personagens da Educação em Goiás, como reconheceu a Secretaria da Educação e Cultura do Estado, em nota distribuída à imprensa, ao lamentar a sua perda.

  • Realizo pesquisa para publicar um livro sobre o Colégio Estadual Professor Pedro Gomes, com foco na década de 1960.

3 thoughts on “O legado de dona Lígia Rebelo

  1. Estudei no CEPPG de 1964 a 1972 e convivi com Dona Ligia por apenas dois anos e meio. Em 1966 ela foi substituida na direção do Colégio pela Professora Maria Conceição da Paixão Mafra (Dona Zizi) motivada pelas “imposições” do regime politico ditatorial do país naquela oportunidade (penso assim). Quando lá estudei (até 1972) havia um busto da insigne Professora na praça central do Colégio (não sei se o mesmo ainda existe naquele local de destaque). Minhas eternas e imorredouras homenagens a essa figura impar da educação em Goiás e em especial na “Campininha” meu berço natal. Carlos Pereira das Graças, Médico Veterinário e Professor de Filosofia.

  2. Também me lembro com muito carinho de Da. Lígia. Fui funcionário público com 14 anos (naquela época podia), e foi um orgulho muito grande pois Da Lígia era uma amiga e eu uma criança. Depois a Da. Zizi até todos nós chamados Extra-Numerários, serem exonerados mas Da. Zizi continuou mantendo o meu salário por fora com verba do próprio colégio até 1971 quando pedi para sair pois iniciei faculdade de Medicina em Belém. Hoje sou cardiologista e Intensivista. Bons tempos.

  3. Em 1960, vindo de s. Paulo, estudei o terceiro secundârio no Pedro Gomes e tive oprtunidade de saudá-la no dia de seu aniversário. Grande educadora!! Getúlio Gatcia, elegado de Policia aposentado

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