A história de Maria Luiza Naves, carinhosamente tratada por Nenzinha, é um rico exemplo de vida, por tudo que ela tem sido e vivenciou nestes seus 80 anos que estão sendo comemorados neste mês de julho de 2001.Mulher de seu tempo, conselheira e amiga, é firme em suas ações e respeitada em suas decisões. Mãe carinhosa e presente, não teve muitas oportunidades de estudos mas cuidou e acompanhou os filhos para que estudassem e tivessem mais chances na vida. Esposa dedicada e atuante, foi uma presença constante ao lado do marido em todas as suas atividades, em especial as religiosas e políticas. Destacou-se pelo trabalho social em São Geraldo/Goianira, onde morou por 26 anos, e no bairro de Campinas, onde mora há 50 anos, trabalhando no resgate da cidadania das famílias de baixa renda. Reservada e simples, muito simpática, é uma presença marcante e solidária.

Dedicou toda a sua vida à família – o marido, os nove filhos que teve e o sobrinho que cuidou desde que se mudou para sua casa aos seis anos, os netos,os bisnetos e os irmãos que ajudou a criar, além dos afilhados que foram morar em sua casa até a independência financeira. Sempre justa e carinhosa, tratou a todos com igualdade e espírito de justiça. Católica, freqüenta a missa aos domingos e participa das atividades sociais da Igreja. Com o marido, atuou na Sociedade de São Vicente de Paula, no apoio às famílias pobres. Prática, em questões de saúde prefere as misturas caseiras, como o álcool com arnica e cânfora (álcool canforado), que fabrica apenas na Semana Santa e distribui, em vidrinhos, para os filhos e amigos mais próximos. Os netos costumam dizer que o álcool “é milagroso, serve para curar tudo”.

De mudança para São Geraldo

Goiana de Trindade, Nenzinha nasceu no dia 25 de julho de 1921, filha da mineira Maria de Araújo Oliveira e Silva (Preta) e de Osório Carlos da Silva – seus avós maternos, Carolina Cândida de Oliveira e Cesário de Paula Araújo, vieram de Minas Gerais, e seus avós paternos, Maria Luiza de Jesus (Vó Iza) e Laurindo Camargo da Silva, devem ter nascido na mesma região que ela, possivelmente na fazenda Barro Preto. Seus pais se casaram em Trindade, no dia 07 de dezembro de 1916, e tiveram quatro filhos; a última morreu ainda bebê. Ela se lembra pouco da cidade natal. Sua mãe morreu no dia 14 de dezembro de 1923, às 5 horas, de febre espanhola, quando ela tinha dois anos. Foi morar, com a irmã mais velha, Eliza, com a Vó Iza, que era viúva.

Vó Iza voltou a se casar no dia 21 de dezembro de 1925, com Francisco de Paula Ramos (Chico Rosa), que construiu a nova casa na praça do povoado que surgia na fazenda Boa Vista e para lá se transferiram. Acompanharam o casal as duas netas e a jovem Benedita Olinda dos Santos – uma morena bonita e alegre, que cuidava delas desde quando moravam com a mãe e ficou lá até se casar com o Benedito Augustinho; Benedita teve dois filhos: Adão e Eva; e voltou a morar com eles depois que se separou. O lugarejo se chamava São Geraldo, ficava no município de Campinas e não tinha ruas, apenas a estrada que ligava à antiga Capital do Estado, Vila Boa.

Nesse povoado havia poucas casas, a igrejinha, a vendinha da Sinhana do Josias Januário – que tinha pinga, cerveja morna, rosca, broa de fubá, pipoca de polvilho e biscoito de queijo – e a lojinha de tecidos do Jorge. A casa era espaçosa: sala, salão, três quartos, cozinha e quintal enorme; depois se mudaram para a casa na região mais baixa; e de lá foram para a chacrinha, que também tinha uma área com muito espaço, além da despensa grande. Ali, criavam porcos, para consumo, e uma vaca leiteira. Sempre alegre e prestativa, Vó Iza costurava bem e se dedicava a fazer roupas para os amigos – as pessoas levavam o tecido e ela fazia calças, camisas e paletós – e fiar o algodão. Sua renda vinha da produção de tecidos, quando ela cumpria todo um ritual: colhia o algodão no quintal, limpava, descaroçava, cardava, transformava em fio, tingia os novelos de cores diferentes e se instalava no tear, até a noite, para tecer as cobertas. Uma vez por semana, preparava o forno de lenha, que ficava no quintal, para fazer roscas e biscoitos, que guardava no balaio, para serem servidos durante a semana. A avó cuidava da Igreja, acolhia e acompanhava os padres redentoristas, entre os quais o padre Pelágio Sauter, em suas visitas de desobriga, e dava assistência aos enfermos e aos pobres.

Numa dessas viagens padre Pelágio mandou colocar a imagem de São Geraldo num rancho de palha, transformado em capela, na entrada do povoado – na estrada para a antiga Vila Boa, e onde hoje fica a Vila Padre Pelágio –, para onde seguiam, em procissão. Numa dessas procissões, houve uma briga, envolvendo o João de Assis, quando ela e sua irmã voltaram correndo. Vó Iza fazia a janta quando chamou Benedita e pediu para buscá-las; só via o cabelo delas balançando.

 O casamento e os filhos

Em 1932 seu pai, que morava em Trindade, mudou-se para o povoado de São Geraldo. Notando a dificuldade para o sepultamento de uma pessoa, resolveu construir um cemitério, com a ajuda de fazendeiros e dos padres redentoristas.

Antes da conclusão da obra, foi convidado pelo prefeito de Campinas, Licardino de Oliveira Ney, para ocupar o cargo de Sub-Promotor de Justiça de Campinas, que assumiu em 1933. Verificando o desenvolvimento do povoado começou a lutar pela criação do Distrito, fazendo o anteprojeto e reunindo os vereadores, que o aprovaram. Sancionada a lei, levou Licardino a São Geraldo, para a instalação do Distrito, em 1935. Em seguida, mudou-se para Campinas, sendo nomeado Procurador do Município.

Com a criação de Goiânia e a incorporação de Campinas à sua área territorial, São Geraldo passou a pertencer à nova Capital. Osório foi nomeado Secretário pelo primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges. Na época, conheceu o seu futuro genro, José Rodrigues Naves Júnior, que também trabalhava na Prefeitura goianiense, como porteiro-contínuo. Ficaram amigos e numa de suas conversas Osório disse-lhe que o Cartório de Registro Civil de São Geraldo, com a saída do titular, Calimério Bretas, estava vago. Com dinheiro emprestado pelo irmão, Raul Naves, José comprou o Cartório e mudou-se para o lugarejo, assumindo-o em 15 de novembro de 1936. Em 27 de agosto de 1937 José foi nomeado, pelo prefeito Venerando Borges, para o cargo de Sub Prefeito, mas em dezembro daquele ano, diante da incompatibilidade das duas funções, optou por continuar Escrivão Distrital.

Nos anos 30 São Geraldo tinha apenas cursos irregulares, que duravam o tempo de permanência do professor no povoado, às vezes quatro ou seis meses. Em 1935, ela e a irmã tiveram quatro professores: Terezinha de Morais, irmã de seu futuro compadre Odon Rodrigues de Morais, que tinha uma porção de alunos; Maria da Cruz; Benedito – um desconhecido que, aproveitando-se da ingênua relação entre as pessoas, começou a roubar: primeiro, o dinheiro da igreja, obrigando Vó Iza a retirar o cofre e levá-lo para a sua casa; e depois na própria casa da avó, quando entrou de madrugada e roubou o cofre da igreja e o tecido para fazer calça, camisa e palitó que a sua irmã tinha recebido de uma pessoa do povoado de São João (hoje Brazabrantes) para costurar, além do algodão que estava no caixote embaixo da cama. Vó Iza acordou com o vento frio, perguntou a Chico Rosa se ele tinha deixado a porta aberta; desconfiada, foi ao quarto e viu o sumiço do cofre e o caixote de algodão mexido; deu queixas à Polícia, que andou procurando pelas casas e nada descobriu; logo Benedito, que deixara de dar aulas, sumiu do povoado, retornando algum tempo depois para a festa de São Geraldo, quando apareceu justamente com roupa de tecido igual ao que tinha sido roubado na casa de sua avó. O dono do tecido queria que Vó Iza pagasse pelo sumiço do tecido, mas a Polícia reconheceu que havia sido roubado e ela não poderia pagar –, e com Lindolfo, irmão do Josias Januário da Silva. Teve aulas com os quatro antes do casamento.

Maria Luiza Neta e José Rodrigues Naves Júnior casaram-se no dia 23 de abril de 1938, em ato celebrado pelo juiz distrital, Antônio Bueno Teles. Funcionou como Oficial do Cartório do Registro Civil “ad hoc” Gil Augusto Lino e o registro de casamento recebeu o n° 49. Testemunharam o ato o tenente-coronel Arnaldo de Moraes Sarmento e o professor Venerando de Freitas Borges, com sua mulher, Maria. Moraram primeiro numa casa próximo à praça da Igreja, que mais tarde doaram para os Correios, onde nasceram os filhos José Osório (1939) e Raulindo Heinzelmann (41). Na época, participavam das festividades religiosas, sendo noveneiros; e promoviam torneios esportivos, movimentando o lugarejo com diversas atividades. Nesse período, Maria Luiza foi nomeada Sub-Prefeita do Distrito, marcando sua passagem com iniciativas nas áreas da saúde, educação e assistência social. Havia uma dependência grande da Prefeitura Municipal e poucos recursos.

Depois, o casal foi morar na chácara, próximo à estrada para a antiga Capital, que ficava numa área em declive. Ali nasceram Maria Aparecida (1942) e Elvira Luiza (45). O sobrinho-afilhado José, filho do irmão de seu marido que falecera e que tinha o seu nome, chegou aos seis anos, no início dos anos 40 e se integrou à família como filho. Ganhou o apelido de ZéJoão, o carinho e o respeito de todos. A casa tinha seis cômodos, além da despensa e do banheiro, sendo duas salas, três quartos e uma cozinha, com área interligada, todos com amplas janelas. Numa das salas (a da frente) ficava a mesa com o rádio e na outra uma máquina de costura. No quintal, uma variedade de plantas frutíferas, como lima de bico, ameixa amarela, laranja, mexerica, manga, muitas goiabeiras e coqueiros. Próximo à casa, o curral, com um pequeno paiol. A terceira residência foi na Praça, quando nasceram os filhos Sevan (1948) e Jales (50).

Atuação política intensa

Em 1945 Nenzinha participa, com o marido, em São Geraldo, da criação do primeiro Diretório Distrital da União Democrática Nacional (UDN). Dois anos depois, já no período da redemocratização, teve atuação intensa na eleição do seu marido para o cargo de Vereador do Município de Goiânia, pela UDN. Foram 160 votos, quando ele passou a representar o distrito na nova Capital. Em 1950, Naves Júnior elegeu-se Presidente da Câmara Municipal e, no final do ano, foi reeleito Vereador. No ano seguinte reelegeu-se Presidente do Legislativo goianiense e deu posse a novo prefeito, Venerando de Freitas Borges, que fora seu padrinho de casamento.

Nesse ano, preocupados em oferecer mais oportunidades aos filhos, eles se mudaram para Goiânia, onde nasceram as filhas Fátima Rosa, Regina Cândida e Eliza Mônica. Essa casa, na Av. Rio Grande do Sul, no bairro de Campinas, teve uma importância ainda maior, na medida em que se tornou um ponto de apoio para reflexões políticas; ali, o casal recebia políticos que estavam começando e, mais tarde, tiveram projeção, estadual e nacional.

A casa serviu de referência, também, para a juventude goianiense, que ali se reunia, encontrando no casal apoio e segurança em suas iniciativas, tanto políticas como sociais. A juventude da época cresceu passando por ali. A casa e o casal davam apoio, ainda, a pessoas e famílias de Goianira e localidades vizinhas, que vinham à Capital em busca de assistência médica e de oportunidades de estudo e de trabalho, para localização de pessoas e, como a maioria era pobre, para se alimentar. A casa estava sempre cheia e a todos dava toda atenção; para os doentes, conseguia internação, em especial na Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, onde manteve excelente relacionamento com os médicos, pessoal pára-médico e demais servidores, dando solução aos casos que lhe eram encaminhados. Ela reside, até hoje, no mesmo endereço.

Morando na Capital, Naves Júnior continuou lutando pelo Distrito. Nem a forte oposição dos adversários, ligados ao Governo do Estado, foi suficiente para barrar a sua luta pela emancipação do Distrito, o que ocorreu em 1958. O município foi instalado em janeiro de 1959 e ele o orador oficial da cerimônia. Em seguida, Naves Júnior elegeu-se Vereador por dois mandatos em Goianira e Prefeito da cidade; como Primeira Dama, Nenzinha deu ênfase à assistência social, implantando a Maternidade Maria Luiza, em homenagem à sua avó, que fora, em vida, responsável pelo nascimento de muitas pessoas e pelo socorro aos enfermos daquele local e lugarejos vizinhos.

Naves Júnior faleceu em 1995 e ela residiu por mais 10 anos na casa que adquiriram no bairro de Campinas, de onde mudou-se para o Setor Bueno nos anos 2000, onde reside atualmente.

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