Capa do livro, arte de Ludmila Abreu

 

O “Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás”, da escritora Elizabeth Abreu Caldeira Brito, primeiro livro a mostrar as mulheres que escreveram, se dedicaram à pesquisa técnica e científica ou apresentaram sua contribuição à sociedade goiana, faz grande sucesso. Lançado em pdf durante ato no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, em abril, a obra conquista o leitor que a folheia pelo formato, pelo conteúdo, pela beleza estética e pelo texto, leve, claro e abrangente, dando uma nova dimensão à literatura produzida em Goiás. Um trabalho de fôlego, que reuniu 650 nomes e suas histórias.

Na leitura atenta foram identificadas cinco integrantes da família Naves, e apenas uma assina o sobrenome: a professora e pesquisadora Heloísa Aparecida Machado Naves, casada com o jornalista Jales Naves. Três não o assinam: Andréa Luísa Teixeira, pianista e pesquisadora, bisneta de Ana Rosa Naves e Jacob Penaforte; Rosy Cardoso, filha de Sílvia Naves Moreira Cardoso e Waldemar Cardoso do Carmo; e Valeska Montenegro Celestino Otto, escritora, bisneta de Durvalina Naves e Pedro Celestino da Silva. A quinta, Clara Dawn Miranda, foi casada com o empresário Doracino Naves dos Santos.

Memória e futuro

O “Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás” é um trabalho de memória e para o futuro, possibilitando que pesquisadores se inteirem da literatura produzida no Estado, desde seus primórdios. “Esta é a primeira edição de outras que se sucederão, à medida que mais informações surgirem acerca da produção feminina da literatura em Goiás”, afirma a autora. “Que este dicionário circule, inspire, provoque pesquisas, leituras, novos olhares e novas vozes”. São 655 páginas.

O livro “é denso, intenso, carregado de significados múltiplos na sua abrangência de tempo, estilo, espaço e gênero”, como ressaltou o escritor Bento Fleury. Destacou que a autora realizou “um trabalho de fôlego e muito estafante; aquele de rastrear, em estradas e caminhos de pedras e espinhos, talvez algumas flores, a trajetória nem sempre amena da mulher goiana no vasto, difícil e apaixonante campo da ação intelectual”. Num rastreamento muito completo e abrangente, a escritora abarca as biografias das mulheres que se dedicaram ao fazer literário no Estado, estudos críticos, o que é uma novidade por esses rincões, e que remete ao profundo estudo feito em 2002, em âmbito nacional, pela escritora Nelly Novaes Coelho (1922 2017), num alentado volume de 750 páginas.

Elizabeth Caldeira, como assinalou, consegue outras preciosidades, como joias puras do relicário goiano, guardadas em seu escrínio afetivo. Polígrafa, produz em diferentes estilos, como poeta, cronista, biógrafa, crítica literária e crítica de arte, em trabalhos importantes no cenário das letras e das artes de Goiás. Nessa senda, caminhou por estradas tantas, muitas orladas de flores orvalhadas, também em caminhos ásperos, de pedras e tropeços. “Fez um inventário lírico com o perfume bom da emotividade. Alcançou o cerne da produção feminina em Goiás, ao seguir os passos daquelas que machucaram os pés, mas que, mesmo sob o peso da dor, desabrocharam em flores do campo, tocadas, com suavidade, pela magia da ternura, aquela mais doce, expressa na palavra lapidada, que é a janela onde Deus espia os homens e com o encantamento do amor mais doce, aquele descido da pureza do céu”, esclareceu.

Boas notícias

Com a obra a autora “não quer mulheres adormecidas, muito menos enterradas à sombra de nada, nem de uma bela árvore, nem de ninguém, nem do esquecimento da história, nem do desprezo dos que comandaram o tempo e a vida. Nem dos responsáveis por escreverem memórias manchadas por suas ausências, nem das bibliotecas falhas, mancas pela falta do suporte de seus livros, cegas por não abrigarem seus olhares, e surdas por não acolherem suas vozes”. Sabedora de que a aridez do cerrado goiano tem se estendido muito além dos limites da natureza, na falta de água de chuva e na abundância de ventos secos, alcançando a ressequida participação da mulher escritora nos registros literários goianos, pôs-se a trabalhar. “O resultado da pesquisa, de expressiva qualidade crítica, representa uma reidratação do estado de ausência que leva a uma restauração plena da presença de tantos nomes femininos nos anais goianos e sua transformação em flores de um ipê vivo, vibrante e verdadeiro”, apontou a escritora Sandra Maria Fontoura Queiroz de Pina.

Como deixou claro, Beth trouxe boas notícias. “A mulher esquecida agora vibra em amarelo, cada flor uma conquista, cada brilho uma palavra, cada encanto uma voz, cada balanço uma mensagem, um momento, uma criação, um nome, uma produção”, afirmou. Ela identificou “cada flor em plenitude, pesquisou as que tinham murchado, catou as que tinham caído, redescobriu as que a ventania tinha levado para outras paragens, trouxe de volta as que tinham desaparecido na terra”. A pesquisadora procurou “todo canto, toda gente, por volumes esquecidos, pela memória de estudiosos da literatura, nos acervos pessoais e institucionais, nos registros de internet. E não há quem não vá se admirar pela efervescência de flores no seu pé de ipê”. Assim juntadas, elas formam “um buquê de talentos, um conjunto de harmonia nas diferenças, nos caminhos e nos estilos próprios, nas mensagens, nas formas e nos sons distintos”. Beth, já destacada por reunir, em volumes cuidadosos e complexos, conjuntos múltiplos de artistas, “agora nos traz um tesouro que não é só de citação, e sim de apreciação abalizada, de olhares atentos, de opiniões confiáveis, de crítica literária séria. Uma obra primeira, única, que já está em fase de ampliação, porque artistas e arte não se limitam, e nem Beth se limita. Sua capacidade de antever necessidades e ampliar horizontes levou-a à ideia deste livro e a levará muito mais adiante, sempre batendo em cada porta onde mora uma poeta, parando em frente de cada janela onde se debruça uma mulher que sonha com palavras e as grava em papel ou na tela virtual, abrindo cada gaveta onde uma mulher escondeu o seu pensamento, o seu argumento, o seu verso, o seu enredo”.

O dicionário agrega três movimentos. “O primeiro é aquele que foi lá atrás vasculhar. O segundo é o que procura agora. O terceiro é o que nunca mais vai parar de incorporar quem virá”. Acreditando que o terreno pode ser seco no cerrado, mas é profuso na mente, no coração e na expressão da mulher, a autora vai continuar catalogando, dando vida e destaque a cada escritora, reconhecendo o direito de cada uma de ser mostrada e conhecida, “seja a que já se foi em nosso passado frágil, a que está no nosso presente de luta e a que viverá em um futuro que se espera eterno e fértil”. “Sempre respeitando o ciclo do ipê, da queda da folhagem verde ao esplendor da densa florada amarela”, completou.

https://aredacao.com.br/dicionario-de-vozes-femininas-em-goias-tem-cinco-naves/

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