Heloisa e Jales Naves com os diplomas da Academia e os homenageados Mércia e Raimundo Aguiar (Foto de Taquinho)
Como faz todo primeiro sábado do mês, a Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás realizou na tarde deste dia 4 a sua reunião mensal, quando cumpriu dois objetivos. No primeiro, os presentes, atendendo ao que estabelece o Art. 11 de seus estatutos sociais, confirmaram o parecer favorável apresentado, aprovando por unanimidade e os empossando dois novos membros: a bióloga e professora universitária Heloísa Machado Naves, na Cadeira nº 33, que tem como patrono seu avô José Porfírio de Carvalho, e o jornalista Jales Naves, na Cadeira nº 34, tendo como patrono o farmacêutico Nephtaly Guimarães Naves. No segundo, foi dado nome de espaço cultural Mércia e Raimundo Aguiar à sala de reuniões de sua sede, no 14º andar do edifício Parthenon Center, em Goiânia, homenageando os seus dois atuais e dedicados dirigentes.
Na ocasião, organizada pelos acadêmicos Emídio Brasileiro, Marly Arruda Camargo e Marcelo Arruda, houve uma apresentação do violinista Lukas Santana, formado em Música pela Universidade Federal de Goiás e pós-graduado em Planejamento e Logística em Eventos, com seu “Violino na Varanda” (https://www.instagram.com/violino_na_varanda). Brindou os presentes com uma muito apreciada e aplaudida seleção de músicas clássicas e popular brasileira: “Ave Maria”, de Gounod / Bach; “O Cisne”, de C. Saint-Saens; “Jesus alegria dos homens”, de J. S. Bach; “Nessun dorma”, de Puccini; “Grandioso és tu”, Harpa Cristã; “Como é grande meu amor” e “Nossa Senhora”, ambas de Roberto Carlos. Seguiu-se um lanche.
Dentre os presentes, a presidente da Academia Goianiense de Letras, dra. Marislei de Sousa Espíndula Brasileiro.
Patronos
A nova acadêmica Heloísa Naves, ao agradecer a acolhida, disse que seu contato com o mundo espiritual deu-se precocemente quando, “em meus tenros quatro anos comecei a revelar que via assombrações, terminologia usada à época para designar as tentativas de contato dos espíritos com, até mesmo, os pequenos médiuns. Minha mãe atribuía a vermes as denominadas alucinações e passei a ser usuária contumaz de incontáveis vermífugos e chás, dentre eles o de hortelã, cujo odor, após tantos anos remete-me àqueles tempos difíceis”. “Certa noite acordei e vi à beira de minha cama uma bela moça de longos cabelos negros, vestida de verde, cuja estampa tenho firmemente gravada em minha memória. Ela sorria para mim, e diante do meu atordoamento foi afastando-se lentamente até desaparecer. Muito tempo depois vim a saber que essa é uma forma delicada dos espíritos se afastarem”.
Por muitos anos frequentou templos católicos, “mas sem nunca abandonar a convicção da inegável comunicabilidade entre encarnados e desencarnados”, afirmou. Afastou-se da igreja e buscou, mais por curiosidade, a literatura espírita. Há 26 anos começou a frequentar o Lar de Jesus, “casa que amorosamente acolheu-me e lá fiz o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita e o Estudo Avançado da Doutrina Espírita e através de preceptores, como dr. Luiz Antônio de Paiva e dr. Cacildo, pude aumentar mais a certeza de que esse era o caminho que gostaria de percorrer pelo resto de minha vida”. “Eu poderia ficar horas discorrendo sobre os incontáveis benefícios emocionais, espirituais e morais que a Doutrina Espírita trouxe à minha vida, e um deles gostaria de compartilhar com vocês. Há 18 anos perdi, em um acidente de carro, minha mãe, uma irmã e meu único irmão. A serenidade que mantive durante todo o luto e a forma como passei a compreender e a enfrentar as adversidades da vida, em grande parte me foram dadas pelo conhecimento, apesar de pequeno, da Doutrina Espírita, que nunca esteve em conflito com minhas convicções científicas. A ela sou imensamente grata!”.
“Apesar de integrar família predominante católica, tive como exemplo de humildade e abnegação meu avô paterno José Porfirio de Carvalho, que se tornara espírita na década de 1940 e que, depois, por residir no Triângulo Mineiro, tornou-se amigo de Chico Xavier”, afirmou sobre a escolha de seu patrono. “Ele e minha avó, de profunda convicção católica, tiveram 10 filhos, uma longa e respeitosa união, revelando à sua descendência que, apesar de opções religiosas diferentes, todos poderiam viver em profunda paz”.
De sua parte, Jales disse que vai somar na luta da Academia para preservar e promover a cultura espírita, em particular a literatura espírita, e pela proteção, apoio e “incentivo à cultura em geral e ao desenvolvimento intelectual e moral do homem no território goiano”.
Como autor, reafirmou as responsabilidades de cada trabalho e o papel da Academia, de dar identidade cultural para o escritor espírita, para que a sociedade entenda a presença da entidade na sua vida: “ele dedica horas preciosas de seu tempo para o ato de criar e produzir, às vezes até com sacrifícios ao convívio com a família e, não raras vezes, não é reconhecido em seu papel”.
Natural de Goianira, a “pequena Goiânia” como seu pai, José Rodrigues Naves Júnior, a intitulou em sua luta vitoriosa pela emancipação da antiga Vila de São Geraldo, que integrava o município da então nova Capital goiana, sempre morou em Goiânia. Fez os cursos secundário/médio no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes e de Jornalismo na UFG, trabalhou nos mais diversos veículos de comunicação e chega aos 60 anos de atividades jornalísticas com um legado do qual se orgulha.
Ao falar de seu patrono, Jales disse que busca inspiração em Nephtaly Guimarães Naves. “Simples e humilde, tratando a todos com muita atenção e carinho, tornou-se uma legenda em Araguari, MG. Farmacêutico formado, trabalhou na Drogasil; na época, os médicos, depois da consulta, receitavam aos pacientes os medicamentos que eram feitos em farmácia”, afirmou. “Certo dia, quando pegou uma receita e leu a dosagem, que considerou exagerada para uma criança, sentiu um vento forte, como que o alertando para o perigo do medicamento ter o efeito contrário e prejudicar o pequeno paciente. Essa sensação se repetiu outras vezes e, em todas, ele tratou de reduzir a dosagem, que resolveu o problema do doente”.
A partir desse momento começou a firmar nele uma convicção que, na época, era muito criticada, principalmente para ele que vinha de uma família muito católica: a opção pelo espiritismo, pela doação ao próximo, de forma desprendida, e que ele logo assumiu, realizando um importante trabalho na cidade e na região. Fundou o Centro Espírita Caminho da Luz, que era a sua base de atuação. “Desde essa época passou a questionar as receitas. Muito meticuloso, explicava às pessoas a razão de suas dúvidas, produzindo as dosagens de acordo com esse sentimento que passou a prevalecer nesses momentos. O fato logo se espalhou, com alguns pais o procurando até mesmo sem receita, para que ele indicasse o melhor tratamento para seus filhos, e mesmo para adultos”.
Outra inspiração foi sua tia Maria Duarte Naves “e suas belas orações nas reuniões de que participávamos, sempre com bons exemplos a nos orientar em nossa caminhada”.
“Chego com disposição, pronto para colaborar” , completou.
Novos acadêmicos
Heloisa Aparecida Machado Naves é mineira de Ituiutaba, fez o Curso de Biologia (História Natural) na Universidade Católica de Goiás, que concluiu em 1974; no ano seguinte foi aprovada para lecionar na UCG, tornando-se uma das pioneiras na introdução das disciplinas ‘Metodologia do Trabalho Científico’ e ‘Lógica’. Em 1978 foi aprovada na seleção para lecionar na Universidade Federal de Goiás, em seu Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, período em que se destacou no ensino e na pesquisa acadêmica. Mesmo antes de concluir o Mestrado em Medicina Tropical, área de concentração em Parasitologia, pela UFG, já lecionava nos cursos de pós-graduação da área médica dessa instituição. Pesquisadora incansável, realizou uma pesquisa de grande interesse social e repercussão, e com seu trabalho conquistou a nota 10 com louvor por unanimidade dos três exigentes membros da Banca Examinadora de seu Mestrado. Sua dissertação foi considerada uma tese de doutorado, tal o nível das pesquisas, que se concentraram em grupos de insetos que necessitam ser estudados continuadamente, em função de sua importância para a sobrevivência humana e animal. Citou os ‘Culicidae’, pois nessa família acham-se os transmissores de malária humana, febre amarela e outras arboviroses.
Nessa elogiada dissertação ela já denunciava, na época, que o combate à malária, apesar de esforços de pesquisadores, contava apenas com medidas profiláticas quanto aos reservatórios, transmissores e agentes sensíveis, não recebendo ainda cobertura vacinal. Mostrou que, em vários Estados brasileiros, a doença já ocorria em zonas urbanas, inclusive de capitais. Nesses estudos científicos, na década de 1990, indicou que a febre amarela urbana, cujos transmissores são ‘Aedes (Stegomyia) albopictus’ e ‘Aedes (Stegomyia) aegypti’, estava sob cobertura vacinal. E denunciou que isso não ocorria com a dengue, na época fugindo ao controle das autoridades sanitárias, principalmente porque seu transmissor altera seu comportamento, adaptando-se aos mais diversificados ‘habitats’.
Em sua trajetória de pesquisa acadêmica, ela tem mais de 100 trabalhos publicados em revistas e em anais de congressos científicos.
Desde 1968 atuando no Jornalismo e formado pela Universidade Federal de Goiás, na segunda turma do Curso de Comunicação Social (1969-1972), Jales Naves estudou e trabalhou ao mesmo tempo, conciliando teoria e prática, o que favoreceu no aprendizado e na profissionalização. Começou sua jornada pela Agência Goiana de Notícias e passou pelos jornais “Tribuna de Goiás”, “O Popular”, “Folha de Goiaz” e “Cinco de Março” e revistas “Leia Agora”, “Romãozinho” e “Família Naves”. Editou o “Jornal das Cooperativas”, da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás, “Revista da OAB-Goiás” e “Jornal do Trânsito”. Prestou serviços de assessoria em Comunicação para diversas empresas e instituições.
Filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás e à Associação Goiana de Imprensa, dirigiu a AGI em três mandatos. Foi um dos fundadores e presidente da Cooperativa dos Jornalistas de Goiás Ltda. (Projornal), que o indicou para representá-la na OCG, que dirigiu por 11 anos. No período, transformou a pequena Organização que conheceu em 1979 numa das maiores entidades brasileiras da área, realizando um grande trabalho nas áreas de educação e comunicação cooperativista, na representação do sistema e em suas lutas, com ações dinâmicas.
Ocupou a Superintendência Executiva da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Goiás (SEMARH), em 2014, quando exerceu interinamente o cargo de Secretário de Estado. É sócio da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, atualmente como secretário-geral, da Associação Goiana de Imprensa e do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis.
É autor de três livros publicados pela Editora Naves: “Otávio Lage: Empreendedor, Político, Inovador”, de 2015; “Cooperativismo de Crédito – Sua história em Goiás e seu protagonismo no Brasil”, de 2017; e “São Geraldo / Goianira – O surgimento do povoado e a trajetória de pioneiros. Documentos registram a construção do distrito e da cidade”, de 2025; e coautor de outros dois livros: “A história da família Naves no Brasil”, de 2012, das professoras Maria Helena Fernandes Cardoso e Vicentina Naves Fernandes; e “Árvore Genealógica da Família Naves brasileira”, de 2024, do economista Nilson N. Naves.
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