O resgate de marcantes momentos da história do Curso de Jornalismo da UFG, que tiveram à frente os alunos da segunda turma

A segunda turma do Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da Universidade Federal de Goiás, vivenciou seu áureo tempo de estudo, de 1969 a 1972, num momento de elevada tensão política e social no Brasil. Começou suas atividades logo após a edição, pelo governo do general Artur da Costa e Silva, do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, que restringiu as liberdades e, de forma arbitrária, deu poderes de exceção aos governantes para punir, discricionariamente, os críticos e adversários do regime militar implantado em 1964. Ano que não acabou, 1968 ficou marcado pela contestação da política educacional, em especial a reforma universitária, com base no modelo norte-americano, e os acordos MEC-Usaid, que receberam críticas de professores e estudantes, e pela forte repressão dos militares aos atos que eclodiram por todo o país.

Ativa e dinâmica, a segunda turma marcou sua passagem pela instituição por muita luta, em defesa do Curso de Jornalismo da UFG, por melhores condições de ensino, por uma sociedade mais justa e democrática e por mais liberdade. Sua grande contribuição, que deu novo caminho aos próprios cursos de Comunicação, foi a realização, de forma ousada e determinada, de um evento que marcou aqueles tempos sombrios: o Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, o primeiro do movimento estudantil no período ditatorial.

Plenária de abertura do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação

O momento tenso vivido no período esteve presente no Encontrão, seja nas rondas periódicas feitas pelos carros da polícia, como na busca de informações pelos órgãos de segurança do sistema, como se recorda a coordenadora de Alimentação, Jane Sarques, então aluna do terceiro ano do Curso e trabalhando na Assessoria de Relações Públicas da UFG. Ao ser chamada para colaborar com informes sobre o desenrolar do Encontro e sobre participantes, ela se negou e passou a ser vigiada de perto. Antes do final do evento, representantes dos órgãos de segurança foram autorizados por superiores a usar sua própria sala para passar relatórios, sendo avisada a se calar sobre o fato. Terminado o Encontro, não se falou mais sobre isto. Foi uma experiência muito desagradável e que lhe deu muito medo. Até agora, jamais havia narrado o fato a qualquer pessoa.

Esse clima de tensão teve um episódio que, num primeiro momento, deixou a todos preocupados, mas que acabou não interferindo no andamento das atividades. Tesoureiro do Encontrão e então cursando o 2º ano, Luiz Antônio de Alvarenga Freire citou a ousadia dos estudantes cariocas, da Pontifícia Universidade Católica, da Universidade Federal e das Faculdades Integradas Estácio de Sá. “Eles tinham vindo de trem, que fez uma baldeação em Catalão, GO, quando desceram, fizeram arruaças na cidade e foram presos. Depois que chegaram em Goiânia decidiram fazer um protesto, desfilando de roupas íntimas (a moça de calcinha e sutiã) e enrolados em papel higiênico, pela Praça Universitária e indo até o local do Encontrão, que ficava uma quadra ao lado, criando, com essa rebeldia, uma confusão muito grande. A moça inventava muito e se dizia filha de Nelson Rodrigues”, disse.

Audiência com o ministro da Educação, coronel Jarbas Passarinho, para entrega do documento com as propostas do encontro

Na semana seguinte, a Executiva Nacional teve duas audiências em Brasília para entrega das reivindicações do Encontrão: com o ministro da Educação, coronel Jarbas Passarinho, e com o presidente do Conselho Federal de Educação, professor Roberto Santos. Goiás foi representado pelo presidente do CEC, Jales Naves, que presidiu a sessão de abertura do encontro, e por um dos coordenadores, Ronaldo Pedroso de Moraes.

Audiência com o presidente do CFE, professor Roberto Santos, também para entrega das propostas do encontro

Ao completar 45 anos de formatura, os seus integrantes decidiram comemorar a data, para relembrar passagens daquele período, voltar à Universidade para conhecer o espaço físico de hoje e lançar a reedição de um livro, “Contribuição à História da Imprensa Goiana, de José Lobo, publicado originalmente em 1949. Ainda, debater questões da atualidade, homenagear os pioneiros, resgatar a trajetória de cada um e contribuir com o processo de mudança. Um detalhe importante: no primeiro ano do Curso o governo militar reconheceu a profissão de Jornalista, pelo Decreto-Lei nº 972, de 17 de outubro de 1969; estabeleceu que, a partir daquela data, o exercício da atividade jornalística era restrito a portadores de diploma de curso superior, o que representava reserva de mercado para os formados.

A criação do Curso e sua implantação

Criada em 1960, a Universidade Federal de Goiás enfrentava grandes problemas e transformações físicas e estatutárias promovidas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) logo nos primeiros cinco anos de existência. A observação é do professor Joãomar Carvalho de Brito Neto, em artigo no livro “Estudos Contemporâneos em Jornalismo, Coletânea 3, editado em 2016 pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG. Ao fazer o histórico do Curso de Jornalismo da instituição, criado pela Resolução nº 015, de 30 de setembro de 1966, do Conselho Universitário e integrando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, destacou que a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB), nesse ano, começaram a oferecer idêntica formação.

O Curso de Jornalismo da UFG foi criado como resultado da reivindicação encaminhada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás, fundado seis anos antes, e pela Associação Goiana de Imprensa (AGI), que surgiu em 1934 e encampou essa luta. As negociações tiveram início com o primeiro reitor (1960-1964), professor Colemar Natal e Silva, responsável por idealizar e manter um clima de efervescência democrática e cultural na instituição, e se viabilizaram na gestão seguinte (1964-1969), do reitor Jerônimo Geraldo de Queiroz. À frente dessa campanha os presidentes do Sindicato, jornalista José Osório Naves, e da AGI, publicitário Walter Menezes, que participaram de reuniões sobre esse pleito da categoria, e que Colemar tinha como uma das grandes aspirações para o aperfeiçoamento da imprensa goiana, conforme disse em entrevista para o livro “AGI – Imprensa goiana: depoimentos para a sua história, organizado pelo escritor José Mendonça Teles, de 1980.

A implantação do Curso de Jornalismo não aconteceria de imediato e só começou a funcionar em 1968 em espaço cedido pela então Faculdade de Educação e como parte da estrutura do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), criado nesse ano em função da reestruturação universitária. Oitenta alunos se inscreveram no primeiro vestibular para disputar 30 vagas disponíveis. Eles entraram em sala de aula quando o país experimentava um duro combate das forças militares no poder que resultou, em dezembro, na edição do AI-5, como registrou o jornalista Joãomar Carvalho. Explicou que houve reação, principalmente, dos estudantes, que saíram às ruas para protestar, e o regime militar respondeu com mais violência.

Em 1969 foram oferecidas 50 vagas, apareceram 41 candidatos e apenas 16 foram classificados. O terceiro vestibular, em 1970, continuou oferecendo 50 vagas, com 70 candidatos e 30 classificados.

Primeiro professor a ser contratado para o Curso, Antônio Maia Leite afirmou que as dificuldades do funcionamento, como falta de condições operacionais, contribuíram para a saída de alunos para outras instituições, o que explicaria a formatura de apenas quatro da primeira turma, em 1971. Justificou que, apesar desses desafios, a Coordenação do Curso procurava alternativas para garantir a qualidade necessária para os futuros profissionais. Duas providências foram importantes nesse processo: a primeira, um acordo com o “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro, que enviou seu Editor de Fotografia e professor da antiga Universidade do Brasil para ministrar aulas em Goiânia. A segunda foi um convênio celebrado com a UnB, por seu Departamento de Comunicação, que enviava os professores José Salomão David Amorim, José Antônio D’Arrochela Lobo e Luiz Gonzaga Motta nos finais de semana, durante um ano, para lecionar disciplinas específicas.

Em 1970 foi criado o Departamento de Comunicação Social, que passou a ser dirigido pelo professor e jornalista Modesto Gomes da Silva, do Departamento de História, mas continuou a falta de condições para o seu pleno funcionamento, inclusive com relação a professores com formação na área.

Uma nova situação trouxe mais dificuldades: o prédio em que funcionava o ICHL, na 5ª Avenida, no Setor Universitário, apresentou problemas de infraestrutura. Foi em1971. Por isso, durante um ano, os alunos tiveram aulas no antigo Seminário Santa Cruz (hoje Centro de Formação de Líderes, da Igreja Católica), que ficava distante e o transporte era muito precário.

Em 1972, aconteceram as duas grandes realizações da segunda turma, num momento de repressão política e de mudanças físicas na Universidade, quando o Curso não tinha nem espaço físico: a criação do CEC e a realização do Encontrão.

Centro de Estudos de Comunicação e I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação

Uma das grandes iniciativas da época, a estruturação do Centro de Estudos de Comunicação (CEC), no âmbito da Universidade Federal de Goiás, em junho de 1972, permitiu a realização de estudos e reflexões a respeito da educação e do ensino universitário. Os estudantes já vinham participando de reuniões em outros estados para discutir sobre os Cursos de Comunicação e não tinham uma entidade em Goiás para coordenar essas atividades. Na época, num momento de tensão em todos os meios diante da violenta repressão política aos críticos e opositores do regime militar implantado em 1964, o CEC assumiu uma arriscada e ousada iniciativa: a promoção do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação em Goiânia, que aconteceu de 1º a 4 de novembro.

Documento de Goiânia“, com a movimentação que antecedeu a reunião, os preparativos, o encontro e conclusões

As informações do período foram publicadas, logo após o término do evento, no “Documento de Goiânia, editado pelo CEC, sobre o Encontrão, como foi denominada essa reunião nacional. Registrou a movimentação preliminar e os resultados alcançados.

Como tudo aconteceu

A movimentação nacional de estudantes da área de Comunicação começou em novembro de 1971, quando o Diretório Acadêmico da Escola de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal da Bahia decidiu promover a I Semana de Comunicação, para a qual foram convocados estudantes de outros estados. Além do anfitrião compareceram representantes de São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraná. O que inicialmente seria um ciclo de conferências transformou-se, por iniciativa de algumas delegações, numa troca de informações e experiências entre os colegas, em debates paralelos à realização das palestras. Constatou-se, com os relatos, que as deficiências e necessidades eram comuns e que exigiriam soluções igualmente comuns. Decidiu-se pela formação, com representantes das escolas participantes da Semana, de uma Comissão Executiva Nacional, com a função de entrar em contato com as escolas que não compareceram a Salvador, buscando motivá-las para a efetivação do intercâmbio que se iniciava. Foi marcada uma reunião dessa Executiva para março de 1972, em São Paulo, que deveria contar com a participação das escolas ausentes daquele evento; na data compareceram representantes de apenas quatro estados: São Paulo, Bahia e Paraná, presentes na capital baiana, e Rio Grande do Sul, que aderiu ao chamamento.

Diante do pequeno comparecimento, a alternativa foi aproveitar a realização da IV Semana de Estudos de Jornalismo que seria promovida pelo Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), nos dias 14 a 19 de maio, para debates paralelos. O Centro Acadêmico Lupe Cotrim encarregou-se da convocação das escolas.

A participação de Goiás nesse movimento estudantil nacional iniciou-se justamente na Semana da USP, quando seus representantes atuaram nos grupos de debate e mostraram a experiência goiana. Os relatórios evidenciaram a situação difícil enfrentada por todos os cursos de Comunicação: quadro de professores deficiente; ensino quase sempre teórico, inexistindo seu lado prático; falta de material didático; currículos distanciados da realidade; mercado de trabalho estreito; monopolização das empresas de Comunicação; salários baixos; e estágio sem remuneração. Diante dessa realidade, definiram que não adiantava apenas denunciar e sim propor soluções: reconstituíram a Executiva, com um representante por estado, para manter e aprofundar o contato entre as escolas até setembro, data marcada para a realização, em Brasília, do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação. As escolas de cada estado deveriam reunir-se em encontros regionais, coordenados por um Centro Acadêmico previamente designado. O CA Lupe Cotrim, da ECA/USP, ficou responsável pela elaboração e distribuição mensal de um Boletim Informativo, com informações sobre o andamento dos preparativos em cada escola, na preocupação em acabar com o isolamento em que os estudantes se encontravam.

Nessa ocasião foi mostrada a situação do Curso de Jornalismo, que integrava o Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFG: implantado em 1968, ainda não era reconhecido; possuía cinco máquinas de escrever e três de fotografia; a Rádio Universitária era usada pelos estudantes; a Universidade possuía equipamentos gráficos “off-set”, mas o jornal laboratório era impresso fora; e a TV local cedeu 15 minutos semanais para os alunos do terceiro ano. Os estudantes eram filiados ao Diretório Acadêmico de Ciências Humanas e Letras; o Diretório Central dos Estudantes, único para as Universidades Católica e Federal, estava ligado aos cursos pelos DAs. Mercado de trabalho: dois jornais diários, duas estações de TV e nove emissoras de rádio. Não ofereciam estágio.

O primeiro Boletim Informativo, referente a maio/junho daquele ano, relatou a difícil situação dos cursos, em nível nacional, coincidente com a situação em Goiás. Anunciou a intenção de formar uma associação para reunir os estudantes de Comunicação de todo o país, responsabilizando-se pela defesa dos seus direitos e dos seus interesses. Indicou a necessidade do apoio e da participação da grande maioria dos alunos dos cursos para fortalecer suas reivindicações, estimulando que cada escola discutisse em sala de aula as propostas para defender em Brasília.

A Executiva Provisória teve sua primeira reunião no dia 19 de maio, quando decidiu criar um Fundo Nacional (Fundão), a ser alimentado por contribuições financeiras das escolas, no valor de Cr$ 200,00, para suprir as necessidades das delegações e cobrir as despesas do próprio Encontrão. Foi sugerido, para ampliar a arrecadação de recursos, que as escolas realizassem o maior número possível de atividades, como Feira de Livros, shows musicais, Festival de Cinema etc., e que se preocupassem com a prestação de contas, reunindo as respectivas notas fiscais. Segunda decisão: abrir a conta nº 269.685-2, na Agência Central do Banco do Brasil em São Paulo, para receber as contribuições. Terceira decisão: os estudantes do Centro Universitário de Brasília (Ceub) deveriam enviar, até 30 de maio, informações sobre as possibilidades de realização do encontro, hospedagem, auditórios, apoio da Universidade de Brasília (UnB) etc. Quarta decisão: até 15 de junho as executivas estaduais mandariam a São Paulo relatórios detalhados sobre a situação das escolas.

Nessa Semana foi reivindicado ao presidente da Federação dos Jornalistas, Adriano Campagnole, maiores e melhores condições materiais para eliminar o distanciamento entre estudantes e profissionais. Foi citada, como exemplo, a cessão de salas dos Sindicatos de cada estado para a futura Associação dos Estudantes de Comunicação, que seriam instaladas. De imediato, ele encaminhou a reivindicação ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal.

Foram propostos quatro temas para discussão: situação das escolas; reforma universitária-orientação educacional; representação estudantil; e mercado de trabalho. As sugestões de subtemas deveriam ser enviadas a São Paulo, por dispor de condições materiais para a centralização da correspondência dos estados, até 15 de agosto. A partir dessa data seriam organizadas as colaborações que chegarem para apresentá-las à Executiva nos dias 2 e 3 setembro, em Brasília, véspera do início do Encontrão, previsto para começar no dia seguinte, 4, e se estender ao dia 9, aproveitando a suspensão das aulas durante as comemorações do Sesquicentenário da Independência. Na pauta, a criação da Associação Nacional de Estudantes de Comunicação, já solicitando estudos sobre a possibilidade de existência concreta da entidade nacional, sua viabilidade, sustentação, estatutos, funcionamento, encaminhamento, forma de eleições durante o Encontrão etc.

Outra proposta foi quanto aos encontros estaduais, considerados indispensáveis ao êxito do Encontrão. Nas discussões, verificou-se que os problemas eram gerais: não havia ilhas de bom ensino em meio ao mar de currículos falhos, professores deficientes, alunos marginalizados dos órgãos que decidem os destinos das faculdades e a existência de particularidades regionais, comuns às escolas de todos os estados brasileiros. “Se as raízes dos problemas são idênticas, muitas vezes os efeitos se manifestam de forma diversa”, explicaram, ao defenderem a necessidade de se discutir essas particularidades justamente nos encontros estaduais, quando também se daria o maior envolvimento dos estudantes da área.

Três representantes do Departamento Cultural do Diretório Acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis, Administração e Comunicação do Ceub estiveram no dia 1º de junho em São Paulo confirmando o Encontrão em Brasília, expuseram o encaminhamento e informaram que até 30 daquele mês forneceriam os dados necessários. A primeira estimativa era de que 400 estudantes participariam do encontro e que até 15 de agosto cada escola indicaria o número de seus representantes. Paralelamente, todas as escolas deveriam divulgar o encontro em jornais, TVs, rádios, entidades ligadas à Comunicação etc., e levar a Brasília o máximo de material possível de sua entidade representativa, ou da própria escola, além de trabalhos de alunos, de interesse geral, para um efetivo intercâmbio.

No final de julho, com pouco mais de um mês para a realização do Encontrão e sem informações sobre o andamento dos preparativos, como a definição quanto a alojamento, transporte e alimentação para os participantes, o Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da ECA/USP, tomou uma decisão, conforme o segundo Boletim Informativo, de agosto: enviar um diretor a Brasília para conferir a situação. Lá chegando, verificou que os alojamentos possíveis não estariam disponíveis, por causa dos festejos da Semana da Pátria; a Universidade de Brasília estava em férias; e o Ceub com grandes dificuldades para levar avante os preparativos. Diante desses problemas levantados, a Executiva Provisória, criada para organizar e realizar esse I Encontro Nacional, reuniu-se nos dias 12 e 13 daquele mês, em São Paulo, com a presença de representantes do Rio Grande do Sul, Paraná, SP, Minas Gerais, da UnB e de Pernambuco, para uma avaliação do quadro. Constatou ainda que só duas escolas mandaram sua contribuição para o Fundão, dentre as quais o CEC/UFG; e não tiveram notícias sobre a realização dos encontros estaduais e regionais. Esses fatos levaram a Executiva Nacional a adiá-lo. “Realizá-lo nessas circunstâncias poria em risco a perspectiva de um trabalho sério e honesto e com resultados efetivos”, afirmaram. Não definiram uma nova data e convocaram a reunião seguinte da Executiva para os dias 8 e 9 de setembro, no Diretório Acadêmico da Faculdade de Comunicações da Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Considerando que o Encontro Nacional pretendia ser uma contribuição à análise do ensino de Comunicação ministrado no Brasil, com a apresentação de sugestões para a sua melhoria, a Executiva reafirmou o temário proposto, de discutir a situação e perspectivas do ensino de Comunicação, do mercado de trabalho e do estágio e da representação estudantil. Sugeriu que se procurasse a diretoria das escolas para buscar apoio à realização do evento e planejar campanhas para a obtenção de dinheiro, para ajudar nas despesas com transporte, alojamento, alimentação, correspondência etc. Propôs maior divulgação, nos veículos de comunicação de cada cidade, dos encontros estaduais e do nacional, e que as publicações a respeito, como boletins, relatórios, teses e artigos, deveriam ser reimpressos pelas escolas e afixados em mural, para que todos os alunos tomassem conhecimento e participassem. A Executiva enviou cartas ao Ministério da Educação e Cultura, à Federação Nacional de Jornalistas, à Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa da Comunicação, ao Ceub e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, relatando sinteticamente as suas resoluções e esclarecendo os objetivos do encontro.

O boletim registrou que a delegação goiana que participou da IV Semana de Estudos de Jornalismo em São Paulo, ao voltar, fundou o Centro de Estudos de Comunicação (CEC) e elegeu uma diretoria provisória. Divulgou três artigos do estatuto da entidade:

Art. 1º – Com a denominação de Centro de Estudos de Comunicação e sigla CEC, fica criado no Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás, com sede e foro em Goiânia, Capital do Estado de Goiás, uma sociedade civil de tempo ilimitado, que tem por fim congregar alunos, ex-alunos, professores do Curso de Jornalismo e jornalistas, com o objetivo de promover estudos e pesquisas que visem o aprofundamento da formação cultural e profissional de seus associados.

Artigo 2º – Só poderão pertencer ao Centro de Estudos de Comunicação alunos, ex-alunos, professores do Curso de Jornalismo e profissionais legalmente registrados no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás. § Único – Há quatro categorias de sócios: a) Sócios alunos; b) Sócios ex-alunos; c) Sócios professores; d) Sócios profissionais.

Art. 3º – Cabe ao CEC: a) promover conferências sobre assuntos culturais, jornalísticos, econômicos, sociais e científicos. b) manter contato com as entidades estudantis ou com os representantes legais do corpo discente. c) promover cursos de extensão universitária. d) criar um Jornal Laboratório. e) promover pesquisas assim como experiências e estágios em órgãos de imprensa. f) criar uma biblioteca especializada para o CEC. g) lutar pela concretização dos direitos humanos, assim como manifestar-se frente a cada fato em que esses direitos estejam sendo negados. h) lutar pela unidade cultural do país, orientação nacional do ensino e sua acessibilidade a todas as classes. i) lutar pela maior representatividade dos alunos nos órgãos de direção da Universidade. j) lutar pela liberdade de imprensa”.

E arrematou: O CEC é a entidade que em Goiânia se encarrega de todas as atividades referentes ao Encontrão.

No terceiro Boletim Informativo o registro da reunião da Executiva Nacional Provisória dos Estudantes de Comunicação, realizada em Belo Horizonte, MG, nos dias 8 e 9 de setembro, com a presença de representantes de sete estados: Minas Gerais, Guanabara, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Maranhão. No primeiro dia foi feito um relato da situação nacional e, após, cada estado apresentou o andamento de seus encontros. Goiás informou que não fez o encontro regional porque não sabia se deveria se comunicar com os colegas de Brasília e se ofereceu para ser a sede do Encontrão, justificando que tinha o apoio de autoridades estaduais e de presidentes de entidades estudantis. A proposta foi aceita por unanimidade e estabelecidos os dias 1º a 4 de novembro para sua realização. “Cada escola deve procurar ajudar Goiânia para que o Encontrão receba condições para sua realização”, anotou o boletim.

No segundo dia, 9, foram discutidos os temas e subtemas, Fundão e Encontrão. Incluiu-se no temário, quanto a ensino, quatro divisões: 1. Estudo do currículo mínimo obrigatório “Celso Kelly” e do currículo pleno de cada escola, sua adequação à realidade, tema subdividido nas áreas de Jornalismo, Publicidade e Relações Públicas; 2. Proliferação de escolas sob os aspectos de mercado de trabalho, qualidade do ensino e descentralização, diante da concentração na região centro-sul; 3. Sentido atual do ensino de comunicação – situação e perspectivas do ensino: aparelhamento necessário; histórico de verbas destinadas a Faculdades de Comunicação; e viabilização da realização de fóruns de debates semestrais e sua inclusão no currículo; e 4. Qualificação de professores: aumento dos cursos de pós-graduação e de especialização (itinerantes ou fixos).

A discussão sobre mercado de trabalho teve duas indicações: levantamento geral/tabulação dos dados a respeito e discussão dos problemas enumerados pelas empresas, em relação ao aluno de Comunicação. O debate acerca da representação estudantil foi encaminhado com três sugestões: 1. conhecer, a partir de levantamento, qual entidade e tipo (Diretório Acadêmico, Centro etc.), plataforma de trabalho, funcionamento, relação com alunos e com a universidade, dificuldades encontradas, causas, sua relação com os órgãos colegiados e legislação; 2. problemática da participação (objetivos, formas e métodos de trabalho e intercâmbio); e, Associações regionais e Nacional (viabilidade e estatutos).

Foi reafirmada a importância do Fundão e do envio de cota mensal, correspondente a Cr$ 1,00 por aluno, para as despesas com boletim informativo, cartas, telegramas, telefonemas, cartazes, ajuda às escolas que não têm condições financeiras de se representar, aquisição de material para realização do Encontrão em Goiânia etc. São Paulo ficou encarregado de confeccionar um poster alusivo ao Encontrão, a ser enviado pelo Correio a todas as escolas e cada uma deverá organizar sua venda, com os resultados auferidos revertidos para o Fundão. Sugestões de atividades que podem gerar recursos: show de MPB; pedágios; promover ciclos de cinema, feiras de livros e rodas de samba, confeccionar flâmulas, plásticos para automóveis e chaveiros alusivos ao Encontrão; e solicitar apoio financeiro às diretorias das escolas e reitorias.

O quarto boletim, de 25 de setembro, registrou a expectativa diante da proximidade do Encontrão, as comissões formadas e se movimentando, e a falta de informações atrapalhando os organizadores nas previsões. De acordo com esse documento, não chegavam as relações dos alunos que cada escola pretendia enviar – a estimativa era de 500 participantes, numa média de 10 alunos por escola; e nem como chegariam, se avião, ônibus convencional, ônibus fretado etc. Informava que a reunião da Executiva Nacional Provisória seria nos dias 14 e 15 de outubro, no Diretório Acadêmico Tiradentes, da PUC do Rio de Janeiro. Sugestão: escolha de professores e jornalistas considerados importantes para participarem das discussões do Encontrão.

Relato dos goianos: estiveram com a diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFG, professora Lena Castelo Branco Ferreira Costa, e ela se prontificou a dar apoio dentro das possibilidades do ICHL, devido ser final de ano e as verbas estarem reduzidas; com o Chefe de Gabinete do Reitor, que estava olhando o problema da alimentação e marcaria, com o Secretário da Educação e Cultura, audiência com o Ministro da Educação, para confirmar a data e o local da solenidade de encerramento do Encontrão; e a Prefeitura Municipal anunciou uma pequena ajuda. Não havia sido possível falar com o Governador do Estado, que não estava parando no Palácio: a realização, no Parque de Exposições Agropecuárias, da I Exposição Nacional de Campeões, estava tomando todo o seu tempo. O Sindicato dos Jornalistas, a Associação Goiana de Imprensa e o professor Taylor Oriente cederam salas para funcionamento da Secretaria-Executiva. Ainda, seria marcado o encontro regional com os colegas de Brasília.

Nesse relato, o otimismo dos goianos: “O esquema geral de trabalho está traçado, com os primeiros resultados surgindo. Tudo corre bem. Esperamos que, além de organizado, o Encontrão venha a se constituir, na realidade, no primeiro passo para a solução dos problemas que emperram a estrutura do ensino de Comunicação no Brasil, que, apesar de incipiente, ainda está a desejar”.

Foi relacionada a Comissão Organizadora:

Coordenador Geral, Jales Rodrigues Naves (4º ano);

Vice-Coordenadores:
de Imprensa, Ronaldo Pedroso de Moraes (1º ano);
de Administração, Modesto Lopes dos Santos (4º ano);

Secretário-Executivo, Ronaldo Martins de Almeida (1º ano);

Tesoureiro, Luiz Antônio de Alvarenga Freire (2º ano)

Comissões:

de Alimentação, Jane Jorge Sarques (3º ano);
de Finanças, Maria Beatriz Ribeiro Costa (2º ano);
de Programação, Leila Daher (4º ano);
de Transportes, Teresa Cristina de Moraes Lobo (4º ano);
de Alojamentos, Maria das Graças Cruvinel (2º ano);
Relações Públicas, Iolanda Barbosa (3º ano).

O quinto boletim, sem data, trouxe poucas novas informações, repetindo as indagações anteriores quanto ao não envio da relação dos alunos que cada escola pretendia trazer, a forma de locomoção até Goiânia e a relação dos convidados especiais. Foi anunciado o local da Secretaria-Executiva; que a conta bancária tinha sido aberta no Bradesco, em nome de Jales Naves e Maria das Graças Cruvinel, para o envio das contribuições; que as refeições seriam no Restaurante Universitário, ao preço unitário de dois cruzeiros; que a Diretoria Regional da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos facultou ao Encontrão todos os serviços de comunicação mais imediata e colocou um funcionário para enviar e receber qualquer mensagem de urgência; e que tinha conseguido ônibus para atender aos participantes.

O encontro com o pessoal de Brasília seria no fim-de-semana; e alertava a todos para as mostras de arte. Estava sendo acertada a realização de audição noturna especial no Conservatório de Música do Instituto de Artes da UFG. A divulgação era intensa em Goiás; São Paulo ainda não tinha enviado material, como poster alusivo ao Encontrão e nem recebido nenhuma confirmação de participação. O pessoal se preparava para ir à reunião da Executiva no Rio de Janeiro.

A reunião da Executiva no Rio de Janeiro, nos dias 14 e 15 de outubro, foi o tema central do sexto boletim, com relatos sobre os encontros regionais de São Paulo, RJ e Minas Gerais. Os cariocas e mineiros lamentaram a pequena participação de estudantes em suas reuniões regionais, devido à falta de entrosamento entre as escolas de cada estado, a dificuldade de se discutir o Encontrão com as turmas e a falta de experiência no encaminhamento dessas atividades. Os dois estados anunciaram que fariam novos encontros. Paraná e Bahia relataram suas ações. Goiás e Brasília iriam se reunir no dia 21.

A Comissão Organizadora disse de sua expectativa de participantes; que as reuniões seriam no Colégio Estadual Presidente Costa e Silva, numa área central, o Setor Universitário; estavam reservando um dos blocos na Praça Universitária para alojamento dos participantes e solicitou que cada um levasse sua roupa de cama; e que os banheiros de dois ginásios foram reservados para banhos.

Foi decidido pela realização de uma reunião da Executiva Nacional Provisória em Goiânia no dia 30 de outubro, para redigir o documento de abertura e que os demais participantes (alunos e professores) deveriam chegar no dia seguinte, 31, para já providenciar a inscrição, no valor de Cr$ 5,00, e das respectivas proposições.

Os grupos de estudo se reuniriam pela manhã, a partir das 8h, para apresentação das sugestões, com a mesa sendo composta por um representante de cada grupo de estudo. À tarde, em plenário, discussão mais aprofundada das propostas apresentadas pela manhã, com a mesa igualmente composta por um representante de cada grupo de estudo. As conclusões de cada tema seriam apresentadas na Assembleia Geral, diariamente. Logo após a reunião de manhã cada grupo apresentaria um sumário de seu trabalho à Comissão de Imprensa, para ser mimeografado e distribuído em plenário para que os participantes tivessem condições de discutir todos os subtemas.

O boletim divulgou a sistemática do envio das contribuições ao Fundão e reiterou a solicitação dos organizadores quanto às iniciativas que cada escola traria para o Encontrão, como mostras de arte, audiovisual, peças de teatro etc. para serem incluídas na programação social. Foi enviado um modelo de ficha de inscrição, com os dados de cada participante.

As atividades seriam em espaços do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva, conhecido como Colégio Universitário, por se localizar no Setor Universitário. Os estudantes ficariam alojados no Centro de Treinamento de Líderes, as mulheres, e no Colégio Estadual Rui Barbosa, os homens. As refeições seriam no Restaurante Universitário, da UFG. A abertura solene, com coquetel, estava programada para o Umuarama Hotel.

O encontro dos paulistas, com ampla discussão sobre o temário e as conclusões apresentadas, trouxe ainda dados gerais sobre o ensino naquele momento: existiam 46 Escolas de Comunicação no país, sendo 11 em São Paulo; e a grande maioria das Escolas com cursos diferentes, currículos diferentes, professores diferentes e objetivos diferentes. Eram seis mil estudantes de Comunicação e seriam seis mil novos profissionais lançados no mercado de trabalho. Apontou que essa situação unia a todos, que o intercâmbio das diversas escolas mostrou que haviam, em todos os níveis, problemas comuns, quando se procurou incentivar o contato entre os estudantes de todas as escolas para envolvê-los nessa discussão nacional.

Um dado especial: por volta de 1960 as 38 Escolas de Jornalismo da América Latina mantinham uma formação literária e humanística de profissionais para os meios de comunicação coletiva e mais especificamente para os periódicos. Isso se devia, entre outras coisas, ao fato de estarem essas escolas vinculadas, como apêndices, às Escolas de Filosofia, Ciências e Letras ou Direito.

A criação de um órgão latinoamericano que se preocupasse com os problemas do ensino de Jornalismo, o Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para a América Latina (Ciespal) introduziu uma nova perspectiva. A partir de 1963 o Ciespal organizou seminários regionais sob o tema “Ensino de Jornalismo e os Meios de Informação Coletiva”. Dessas discussões decidiu-se que as Escolas de Jornalismo se transformassem em Escolas de Comunicação, ampliando o âmbito de formação do profissional; tivessem autonomia dentro do regime universitário, deixando de ser meros Departamentos de Escolas de Filosofia; a necessidade de se equilibrar as disciplinas teóricas e técnico-profissionais; e a duração mínima do curso: quatro anos. Dessa forma alguns passos foram dados no sentido da busca de uma pedagogia do Jornalismo mais adequada às necessidades regionais.

Foram alinhados os muitos problemas dos Cursos de Jornalismo: currículos díspares das Escolas; inexistência de uma nova metodologia de ensino, para atender as necessidades de um curso em que o aprendizado se baseia em grande parte em atividades práticas; bibliografia escassa em diversos estados; condições infraestruturais deficientes; qualificação de professores; pesquisa praticamente inexistente etc. No documento, ainda, a relação dos integrantes da Comissão Organizadora, a proposta de programa e o regulamento do Encontrão.

Como foi o Encontrão

Depois de muito trabalho, dedicação e muita expectativa, o I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação teve início às 9h45 do dia 1º de novembro, em salas do Colégio Universitário, com a realização da primeira sessão plenária. Os trabalhos foram abertos por Jales Naves, presidente do Centro de Estudos de Comunicação de Goiás e anfitrião, tendo como auxiliares os coordenadores Vicente Dianezi Filho, de São Paulo, e João Pedro Pinto Filho, do Paraná. Na mesa, os representantes de cada entidade ou escola presente, por estado: Rio Grande do Sul – Mery Lucy, da UCPelotas, e Moacir Molom, do Diretório Acadêmico da Famecos, PUC de Porto Alegre; Paraná – Márcia Maykot, presidente do CEJ da UCP, e Sandra, presidente do CECS do Instituto de Ciências Humanas da UFP; São Paulo – Mário Luiz, da Escola Superior de Propaganda, Maria Helena Tachinardi, do D.A. XXIII de Maio, da Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Campinas, Maristela Figueiredo Soares, da Faculdade de Comunicação de Santos, Amílcar Pezzollo, do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo, Renato Salles Fragoso, da Faculdade de Comunicação Social Anhembi, Roberto Silvistrini, presidente do D.A. da Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, Ornella Angelucci, vice-presidente do C.A. da Faculdade de Comunicação e Humanidades da FAAP, e Ricardo de Morais Monteiro, presidente do C.A. Lupe Cotrim, da ECA-USP; Guanabara – Rogério Pataro Signorelli, do Curso de Comunicação das Faculdades Integradas Estácio de Sá, e Renê Alberto da Silva, da ECO-UFRJ; Minas Gerais – Vicente Gonçalves Santana, presidente do D.A. da Universidade Católica de Minas, Flamínio Fantini Pereira, presidente do CEJ da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, e Maria Auxiliadora, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora; Goiás – Laurenice Costa Noleto, diretora do Departamento de Intercâmbio Cultural do CEC, do ICHL/UFG, representando Leila Daher, escolhida pela delegação goiana; Bahia – Zoraide Cardoso Vilas Boas, presidente do Diretório Setorial do Curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFBa; Pernambuco – Malaquias Ancelmo de Oliveira, da turma de relacionamento do D.A. da Escola de Comunicação da UFPe; Rio Grande do Norte – Ana Maria, diretora do Departamento Cultural do D.A. ‘Odylo Costa Neto’, da Faculdade de Jornalismo ‘Eloy de Souza’; Maranhão – Edmilson Silva Costa, do 4º período do Curso de Comunicação da Fundação Maranhão, e Ivan Carvalho, da Escola de Administração Pública e Comunicação do Estado do Maranhão. Prosseguindo, Jales Naves leu o ‘Documento de abertura’, redigido pela Executiva Nacional Provisória, relatando como surgiu a proposta do encontro, na Bahia, os debates e reuniões sobre a situação das escolas de Comunicação e a criação da Executiva Nacional Provisória, para coordenar as ações; a reunião de março de 1972, em São Paulo, que convocou para maio a ampliação das discussões, na IV Semana de Estudos de Jornalismo da ECA-USP, quando se definiu o temário e pela realização do encontro, na Semana da Pátria, em Brasília, mas que não se viabilizou. A decisão do novo local aconteceu em Belo Horizonte, quando se optou por Goiânia, que havia criado o seu Centro de Estudos de Comunicação, estava bem organizado e assumiu a responsabilidade. Foram programados encontros estaduais e regionais, para levantar problemas e proposições. “Desta forma, obtivemos os dados necessários para estabelecer uma discussão mais aprofundada dos problemas comuns de todos nós, estudantes de Comunicação. O isolamento já começa a ser quebrado. É o primeiro passo. Agora, a partir do I Encontro, devem ser definidas as propostas de diretrizes para a ação conjunta de todas as escolas de Comunicação em busca de um melhor nível de ensino e de um exercício profissional condizente às nossas aspirações. O Encontrão é um momento, de um processo que deve ser constante, e como tal deve ser entendido”, afirmou o Presidente. Em seguida, o coordenador Vicente Dianezi Filho explicou o regulamento, o temário e a programação social, distribuídos em plenário. Na sequência, Jales convocou os representantes de cada estado a apresentarem os relatórios dos encontros regionais. Minas Gerais explicou as falhas de sua reunião, que contou com apenas quatro por cento do total dos alunos. A Guanabara teve seu encontro na PUC, mas as demais escolas só tomaram conhecimento após a sua realização. No Maranhão foi programado, mas não realizado o encontro. Goiás promoveu um fórum de debates, mas não teve como se reunir com o pessoal de Brasília. Rio Grande do Sul foi o primeiro a realizar o seu encontro regional, com base no documento da IV Semana de Estudos de Jornalismo: de cinco escolas, duas tinham equipamentos necessários, e as que os possuíam eram as que menos trabalhavam; cursos deficientes em equipamentos e professores sem especialização; pensaram num currículo comum a todas as escolas. Pelotas realizou fórum, quando os alunos discutiram especialização de professores, melhoria do jornal-laboratório, problema de verbas, ausência de entidade representativa etc. Um dos pontos positivos foi a criação de uma Associação Regional de Estudantes de Comunicação e a implantação de fórum de debates no fim de cada semestre. Em Porto Alegre abordou-se a criação de métodos de ensino especializado e frisou-se o interesse de manter contato permanente com o Ciespal. São Paulo historiou os antecedentes do Encontrão e falou sobre o I Encontro Paulista de Estudantes de Comunicação, que abordou o mercado de trabalho, a situação das escolas, visando a preparação para o Encontro Regional, e encaminhou o relatório, com suas proposições, extraídas desse Encontro Paulista. Paraná se apresentou mostrando total desconhecimento da realidade da própria escola, do mercado de trabalho e de outros problemas, sintetizando suas propostas fundamentadas no trabalho do professor Juarez Bahia, apresentado na Semana da ECA-USP. Deixou evidenciadas algumas questões: 1. o imediatismo dos alunos na solução dos problemas do corpo docente; 2. as queixas diretas em plenário levaram as discussões ao plano pessoal, gerando o paternalismo por parte dos professores e inibição de comportamento na maioria dos alunos; 3. superficialidade das pesquisas. Pontos positivos: ressaltou-se a primeira manifestação dos alunos em participar de debates e colocá-los dentro da realidade dos problemas da escola e do mercado de trabalho. Pernambuco reclamou da falta de conhecimento sobre o Encontrão; que o Curso de Comunicação de seu estado estava relegado à condição de subcurso, não valorizado nem reconhecido pelo governo e pelo povo; e a tendência à proliferação de cursinhos, com duas novas escolas a serem fundadas. Disse que a Faculdade Católica de Pernambuco boicotou os documentos do Encontrão. Bahia disse do novo Diretório eleito, o que dificultou, inicialmente, o contato regional; das reuniões com o Delegado do Trabalho, para esclarecimentos dos direitos profissionais, com o Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e outras autoridades; e da pesquisa, cujos dados seriam distribuídos em plenário. Rio Grande do Norte não teve encontro regional; fez uma Semana de Comunicações, com debates; e o Diretório Acadêmico promoveu um programa de TV, espécie de “Xeque Mate”, com entrevista do Governador e outras autoridades. Neusa Fiorda, de São Paulo, falou da criação de uma entidade nacional, a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa da Comunicação (Abepec), congregando professores, estudantes, entidades e profissionais da área de todos os estados, e defendeu a participação dos Centros Acadêmicos. Às 11h45 foi encerrada a primeira sessão plenária. A ata foi assinada por Dinorah Maria do Carmo, de Belo Horizonte; Constâncio Pinheiro, de Salvador; Joalívia Rodrigues Vasconcelos, de Goiânia; Marcelo Reple, de São Paulo; e Vera Rodrigues Vasconcelos, de Campinas, SP, secretários designados pela Executiva Nacional Provisória.

A segunda sessão plenária começou às 8h45 do dia 2, no mesmo local, aberta pelo coordenador Vicente Dianezi Filho, de São Paulo, substituindo o presidente Jales Naves, que não havia chegado. Na sequência, o relator da Comissão de Proliferação de Escolas, Pedro Paulo Taucce, da UFJF, apresentou seu relatório. O coordenador João Pedro Pinto Filho, do Paraná, recomendou que cada um anotasse a sua proposição pessoal, a fim de que cada entidade chegasse a um consenso, visto que a votação seria por entidade e/ou escola. Lembrou que a participação nos debates só seria franqueada àqueles que houvessem participado das comissões específicas. Foi formada a comissão para estudo do tema: PE, Malaquias Anselmo Oliveira; RN, Emanuel Neri; SP, Maurício José Ielo; PR, Sérgio Henrique Schmith; GO, Jales Naves; MG, Isalino Albergaria; BA, Raimundo Mazzei; e, MA, Miracy de Jesus Souza. Nos debates, Ipojucã propôs que não fossem fechadas as escolas sem aparelhamento. Cinco propostas de Minas Gerias: a) aprofundar os debates, levando em conta uma visão global dos problemas, considerando, no ensino de Comunicação, a problemática da reforma universitária; b) dar uma perspectiva nacional ao Encontrão, esquivando-se da proposição de soluções regionais para problemas nacionais; c) evitar o desvirtuamento das reuniões dos subgrupos; d) evitar as soluções meramente burocráticas, e que as soluções não se atenham apenas a minimizar os efeitos, mas eliminar as causas; e, e) dar uma visão mais consciente da atuação do profissional de Comunicação, já que estava havendo apenas uma visão tecnicista. Regine, do Paraná, propôs: “Não devemos nos colocar radicalmente contra a abertura de novas escolas, pois desse modo estaríamos colaborando para a elitização cada vez maior da Universidade. Entretanto, devemos fazer pressão para só permitir a abertura de novas escolas que tenham boas condições de ensino”. São Paulo sugeriu uma comissão permanente de fiscalização sobre a proliferação de escolas, ligada à entidade nacional, para estudar as causas do problema. Um representante da PUC/RJ defendeu a necessidade de se aproveitar a experiência adquirida em Goiânia e conscientizar os demais alunos e professores, ressaltando que o estudo do currículo deve ser dirigido e fixado pelos alunos, invertendo o processo atual, e encaminhando a proposta diretamente ao MEC, após a devida aprovação dos professores. Goiás sugere que seja formada uma Comissão Nacional para estudar um currículo comum a todo o país. Bahia propôs que os fóruns sejam trimestrais. A sessão plenária ocorreu em um clima de agitação e tensão, dificultando as conclusões das propostas, obrigando a intervenção reiterada por parte do Presidente. Retomados os trabalhos, após alguns debates, foi interrompida a sessão às 11h, para almoço, sendo informado que os trabalhos seriam reiniciados às 13h45.

A retomada das atividades ocorreu no horário previsto, sendo a coordenação assumida pela representante do Paraná, Regine Fernandis Pinto. Bahia propôs o aperfeiçoamento de professores no estrangeiro ou a vinda para o Brasil de professores estrangeiros. Minas Gerais foi contra a formação de comissões encabeçadas pela Abepec e vinculadas ao MEC que, se efetivadas, cairiam no vazio, pois a medida seria meramente burocrática e administrativa. São Paulo defendeu a escolha de pessoas dentro de cada Escola de Comunicação que se responsabilizassem pelo contato com as outras escolas, de modo que possa existir um intercâmbio cultural, baseado em bolsas de estudo para estudantes, a fim de que façam o curso desejado. Rio Grande do Sul quer a criação de uma Associação Nacional de Estudantes de Comunicação Social, subdividida em associações regionais e municipais.

A relatora da Comissão de Relações Públicas apresentou seu relatório e seguiu-se a discussão. Santos sugeriu a inclusão, no relatório de RP, no primeiro semestre, no mínimo, de Protocolo, como disciplina; e a formação de Agência Noticiosa nas faculdades com correspondência entre elas, para a distribuição de notícias da região aos veículos de circulação nacional e das próprias unidades de ensino. São Paulo defendeu a necessidade do ensino de línguas durante todo o curso de RP e que nos demais cursos teriam um período menor; e evidenciar o respeito à regulamentação do profissional de RP para evitar a deturpação da profissão. A plenária foi encerrada às 17h40. A ata foi redigida pelos secretários Dinorah Maria do Carmo, Constâncio Pinheiro da Fonseca, Joalívia Rodrigues Vasconcelos e Marcelo Reple.

A terceira sessão plenária teve início às 9h10 do dia 3, em dependências do Colégio Universitário, a cargo do coordenador João Pedro Pinto Filho, do Paraná, com o auxílio de Regine Fernandis Pinto, também do PR, e Dinorah Maria do Carmo, de Mina Gerais. Foram incluídos como secretários para elaboração da ata João Nery, do Maranhão, e Neusa Maria Santana, de São Paulo, substituindo Vera Lúcia, de Campinas, e Marcelo Reple, SP. Roberto Sampaio apresentou o relatório da Comissão de Publicidade e Propaganda, abordando currículo e metodologia de ensino. Na discussão, São Paulo sugeriu que se desse maior validade e reflexão à Propaganda. Seguiu-se intensa discussão sobre proliferação de escolas. Às 11h30 foram reiniciados os trabalhos, com a entrega dos resultados das votações, e encerrados os trabalhos da manhã, convocando a Executiva para reunião às 13h.

Os trabalhos foram reiniciados às 14h25, com a leitura das propostas feitas pelo relator de Publicidade e Propaganda, seguindo-se a discussão, sem apresentação de novas propostas. Em seguida, apresentado o relatório da Comissão que analisou situação e perspectivas do mercado de trabalho para Jornalismo, e debates. Pernambuco propôs que logo após a realização do Encontrão fosse enviada uma Carta Aberta às escolas e entidades com os resultados obtidos; Maranhão fez uma advertência: uma vez que se estava propondo a criação de estágio remunerado nas escolas, não extinguir os estágios em empresas, onde o aluno adquire conhecimento profissionalizante. Bahia sugeriu pesquisas junto às empresas do interior, a fim de se conhecer um mercado de trabalho em potencial; e que as escolas entrem em contato com os Conselhos Estaduais de Educação para aprovação da inclusão de disciplinas de Comunicação nos currículos de I e II Graus, com base na Lei 5.692, da reforma do ensino, como ocorreu naquele Estado. São Paulo indicou a criação de uma lei obrigando as empresas a admitirem porcentagem de estagiários em relação ao quadro fixo de profissionais, renovando as admissões a cada quatro meses. A Escola acompanharia o estágio, objetivando o aprendizado real. Os estudantes poderiam organizar pequenas empresas jornalísticas ou de publicidade ou escritórios de relações públicas, que funcionariam para satisfazer as exigências de três meses de estágio. Paraná sugeriu que seja feita a fiscalização em relação à lei, para não permitir a entrada de pessoas não formadas em Comunicação ou que não estejam ainda trabalhando em jornal, rádio ou TV. Foi proposta a produção de trabalhos a serem enviados às empresas que poderão vir a ter assessorias de imprensa, RP e Publicidade, até mesmo executar trabalhos afins, mostrando a capacidade de realização dos alunos, como forma de nova abertura no mercado de trabalho. Goiás propôs trabalho nas escolas para uma maior dinamização do mercado de trabalho, a fim de que se conscientize os empresários para a admissão, em suas empresas, de profissionais de Relações Públicas. Às 15h30 foram encerradas as discussões para votação das propostas feitas em plenário.

Às 16h30 foram reabertos os trabalhos, com a votação das propostas, mas diante do cansaço dos presentes, sugeriu-se que as atividades fossem encerradas e a discussão sobre Representação Estudantil retomada no dia seguinte. Proposta: cada chefe de delegação deveria elaborar as conclusões do Encontrão, apresentando-as no dia 4, o que foi aprovado pelo plenário. Deu-se sequência à leitura do relatório de Publicidade e Propaganda, e debates. São Paulo propôs que as relações didático-pedagógicas deveriam ser estabelecidas da seguinte forma: nas duas primeiras semanas do curso alunos e professores se reuniriam para discutir o programa a ser estudado durante o ano, levando em consideração as necessidades regionais. Às 18h05 foram encerradas as atividades do dia.

A quarta e última sessão plenária teve início às 11h25 do dia 4, em dependências do Colégio Universitário, em Goiânia. Foi apresentado, por Edmilson, do Maranhão, Jorge Cláudio e Cléo, ambos de São Paulo, o relatório da comissão que discutiu o tema representação estudantil. Regine Fernandis Pinto, do Paraná, falou dos resultados positivos e negativos do I Encontrão. Na discussão, João Nery, do Maranhão, apresentou duas propostas: 1. um representante estudantil do Departamento de Comunicação, eleito pelos alunos, queria teria acesso às reuniões do próprio Departamento, do Centro de Coordenação, Conselho Central de Coordenação e do Conselho Universitário, com direito a votar e ser votado, com atuação também no Diretório Acadêmico e no Centro Acadêmico, a serem criados; 2. criação de um conclave, a realizar-se anualmente, tendo como participantes os alunos das escolas de Comunicação que integram as regiões Norte e Nordeste, a fim de que, somando esforços e interesses comuns, possam reivindicar algo de mais concreto e positivo dentro da problemática que envolve o ensino de Comunicação naquelas regiões e quebrar o isolamento em que vivem atualmente. Sugeriu ainda a formação de uma comissão organizadora provisória, composta de representantes do Maranhão, Manaus, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia, a fim de organizar a I Semana de Comunicação do Norte/Nordeste, a realizar-se em São Luís, MA, no próximo ano. A primeira proposta foi recusada pela mesa, uma vez que deveria ter sido apresentada no relatório; a segunda aceita por unanimidade dos representantes dos estados e pelo plenário. Em seguida, o coordenador João Pedro orientou sobre a votação dos relatórios sobre Representação Estudantil e Publicidade e Propaganda. Flamínio, MG, pediu a inclusão no relatório de proposta de Minas Gerais, de que o estágio de Publicidade e Propaganda seja feito nas próprias escolas e não nas empresas. Às 12h15 os trabalhos foram suspensos, para um almoço a convite do Prefeito da Capital.

Às 15h15, reiniciaram-se os trabalhos, com a mesa liberando o plenário para votação do tema ‘Representação Estudantil”. Às 17h05, os trabalhos foram novamente reiniciados, com a mesa informando que os resultados das votações seriam tabulados e remetidos para as escolas, uma vez que a maioria das delegações estava com hora marcada para viajar, solicitando que cada escola presente deixasse um representante em Goiânia, até a próxima segunda-feira, para auxiliarem nos trabalhos de redação e confecção do Relatório Final do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação. Em seguida, a mesa deu os trabalhos por encerrados, encerrando também o I Encontrão e convocando uma reunião da Executiva Nacional para as 20h. Logo após, Ipojucã, da Bahia, Sérgio Gomes, de São Paulo, Morais, de Minas, e João Nery, do Maranhão, em nome de suas escolas, agradeceram a hospitalidade dos seus colegas de Goiás, ressaltando a validade e significado do Encontrão. O plenário, de pé, aplaudiu os trabalhos da mesa e, em seguida, “começaram as despedidas, com beijos, abraços e lágrimas, numa demonstração de verdadeiro calor humano e do amor que felizmente ainda existe entre as criaturas desta ‘aldeia global’”, como afirmaram, encerrando a ata, os secretários João Nery, do Maranhão; Joalívia Rodrigues da Fonseca, de Goiás; e Dinorah Maria do Carmo. de Minas Gerais.

Documento de avaliação

Há um ano, na Bahia, representávamos oito escolas e pouco mais de 50 estudantes.

Na IV Semana de Jornalismo, em São Paulo, éramos 11 escolas e cerca de 200 participantes.

O Encontrão estava marcado para Brasília, porém muitas coisas básicas determinaram o seu adiamento.

Deve-se notar que o Encontrão, ora realizado, basicamente pelos próprios estudantes, contando com a presença de 300 participantes, foi resultado dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos de vários Estados, nas suas respectivas escolas. Se ainda é precário, é devido à nossa falta de preparação e experiência. O processo de preparação do Encontrão levou ao amadurecimento das proposições, refletindo-se numa ampliação dos debates sobre as dificuldades e aspirações comuns, assim como o fortalecimento e criação de uma série de entidades (ex.: Centro de Estudos de Comunicação em Goiânia e em Juiz de Fora), resultando numa maior organização dos estudantes.

Durante o Encontrão pudemos observar de positivo o grande número de participantes empenhados em aprofundar os debates nas comissões de subtemas e contribuir nas discussões plenárias. O grande número de propostas (com muita riqueza de conteúdo) tiradas dos debates, que hão de servir como ponto de referência das nossas reivindicações. Além disso o grande número de escolas aqui presentes serviu para se ter um melhor relacionamento entre estudantes de várias partes do país, conhecendo seus problemas de perto.

As discussões acerca da problemática da participação dos estudantes levaram ao aclaramento de como organizar o trabalho nas entidades e como lutar por elas, onde não existem.

Em cima da quebra do isolamento em que nos encontrávamos e em cima das discussões dos problemas comuns, houve o fortalecimento da organização mínima, ou seja, da Executiva Nacional Provisória. Outro ponto positivo, que constatamos, foi a consciência das falhas que começaram a surgir desde o primeiro dia do Encontro e que a partir do terceiro procuramos corrigir, ainda que precariamente.

Em todo momento manteve-se a unidade da grande maioria dos participantes. Este encontro permitiu-nos conhecer muito mais a realidade do Norte-Nordeste, levando-nos à compreensão da necessidade de se tomar medidas para vencer as barreiras que nos separam, tanto ao nível de comunicação, quanto ao nível de organização. Tudo isso permite que, na volta das delegações, se retomem os trabalhos iniciados em cada escola e se inicie onde ainda não houyeram. Isso também ensina que o Encontrão deve ser algo permanente e natural para os estudantes, a fim de que momentos como o que tivemos sejam realmente ápice de trabalhos desenvolvidos anteriormente.

Como pontos negativos, pudemos observar:

a – entre todos os Estados participantes, apenas São Paulo e Paraná realizaram seus encontros estaduais e trouxeram os resultados como contribuição efetiva para o Encontrão.

b – A Executiva manteve-se desagregada e afastada da coordenação dos trabalhos nos dois primeiros dias, o que impediu a reflexão sobre o andamento das atividades e necessária correção dos desvios e direcionamentos dos acontecimentos.

Somando-se pontos positivos e negativos, podemos dizer que o saldo foi satisfatório e que em julho de 1973, provavelmente, estaremos em condições de melhor discutir os nossos problemas.

Este é o único documento final do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, só podendo sofrer correções através da Executiva Nacional Provisória.

A próxima reunião da Executiva deverá se realizar em São Luís do Maranhão, nos dias 14, 15 e 16 de dezembro de 1973, quando estarão presentes representantes de cada Escola de Comunicação do país.

Executiva Nacional Provisória dos Estudantes de Comunicação, reunida nos dias 5, 6 e 7 de novembro, após o Encontrão.

Propostas aprovadas:

1. Currículo

a. Criação de uma Comissão Nacional de revisão do Currículo Mínimo Federal, composta de igual número de alunos, professores, profissionais e representantes do MEC, encabeçada pela Abepec. Esse grupo seria assessorado por comissões nos estados integradas por professores, estudantes e profissionais que organizariam fóruns de debates, mesas redondas, intercâmbios entre escolas e publicação de trabalhos do Ciespal e Celam, visando fornecer subsídios às discussões da Comissão Nacional.

b. Criação de um órgão fiscalizador da aplicação do Currículo a ser elaborado pela comissão proposta.

c. Organização de fóruns de debates semestrais, quando alunos e professores fariam um balanço das atividades desenvolvidas no Curso.

d. Maior equilíbrio entre matérias teóricas e práticas do início até o fim do curso. Programa das disciplinas (principalmente das teóricas) definido e sequenciado.

2. Qualificação de professores

a. Busca de uma relação mais dinâmica professor-aluno, por meio de uma metodologia nova de ensino.

b. Quanto à formação pedagógica dos professores:

b.1 – Estudar a possibilidade de formação de professores para Comunicação, dentro do próprio Curso. Nesse caso, ao invés de Bacharelado, seria Licenciatura em Comunicação.

b.2 – Concessão de bolsa de estudo pelo Ciespal aos professores brasileiros, com prioridade para as deficiências regionais no setor; e o aperfeiçoamento de professores no Brasil, com a vinda de especialistas para ministrar os cursos.

b.3 – Criar órgãos em cada Escola de Comunicação que se responsabilizariam pelo contato com as outras escolas, de modo que possa existir um intercâmbio cultural baseado em bolsas de estudo para estudantes, a fim de que façam o curso desejado.

b.4 – Cursos de extensão aos professores atuais, para ministrar-lhes técnicas didáticas para o ensino de Comunicação.

b.5 – Criação de monitorias nos Departamentos de Comunicação.

b.6 – Divulgação dos concursos para professores, nos Departamentos de Comunicação, em nível nacional.

b.7 – Fiscalização desses concursos por uma comissão composta de professores e representantes legais do corpo discente.

3. Equipamentos

a. Que cada Escola faça um levantamento das necessidades ideais de equipamentos em função de seu currículo e número de alunos.

b. Que esses levantamentos, devido à necessidade de tempo para serem elaborados, sejam trazidos para o próximo Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação e enviados também para a Abepec.

c. Que as Escolas de Comunicação recebam verbas necessárias para a instalação de equipamentos, com base nesses levantamentos.

d. Que as Escolas sem condições de instalação e de equipamentos firmem convênio com gráficas ou jornais para a utilização de sua estrutura.

e. Que as gráficas das escolas trabalhem em regime de renda industrial, como forma de recuperar parte do capital empregado.

f. Que os jornais-laboratórios e publicações dos Cursos de Jornalismo se utilizem de publicidade, para cobrir parte das despesas e ao mesmo tempo integrar alunos de Propaganda e de Jornalismo.

4. Mercado de trabalho

a – Estágio

– Deverá ser efetuado na própria Escola, durante o período de um ano, como parte integrante do currículo. O aprendizado do futuro profissional deve ser realizado no jornal-laboratório; e para que isso ocorra, realmente, estudantes e professores devem pressionar as escolas, de todas as formas, para que se aparelhem devidamente.

– Sob orientação dos professores, deverão ser realizados estágios no interior (em rádios, jornais e emissoras de TV), por meio de convênios com os sindicatos.

– Até ser abolida a exigência do estágio em empresas para a efetivação do diploma, devemos constituir comissões estaduais compostas por representantes dos estudantes, sindicatos e professores para estabelecer as condições desse estágio.

b – Jornais-laboratórios

– Os jornais-laboratórios devem ser integrados na vida universitária e no cotidiano da comunidade em que a Universidade se insere.

– As experimentações não deverão se limitar às formas tradicionais de Jornalismo, e serem produzidos também jornais murais para pequenas comunidades.

– Realizar pesquisa sobre as potencialidades do mercado de trabalho no interior, patrocinada pelos estudantes e pela Abepec.

– Firmar convênios com as faculdades e empresas para facilitar a profissionalização dos estudantes.

– Realizar cursos de pós-graduação em áreas específicas (Economia, Ciências Biológicas etc.), para atender as necessidades reais de especialização que se manifestam no mercado de trabalho.

– Os problemas de mercado de trabalho deverão ser debatidos profundamente em todas as salas de aula, simultaneamente à busca de apoio dos professores, por meio de suas entidades, considerando que a luta por uma Universidade melhor exige a participação dos dois elementos dinâmicos, alunos e professores.

– Igualmente, procurar o apoio dos profissionais, já que a luta pela abertura do mercado de trabalho e pelo fim das limitações impostas à liberdade de expressão requer a participação de todos. Estes podem transmitir suas experiências e propiciar uma visão mais realista dos problemas que nos esperam quando formados. As nossas reivindicações devem ser partilhadas pelos sindicatos e conduzidas conjuntamente, somando esforços. Devemos estudar a realidade e também conseguir mudanças efetivas, para melhora, levando nossas reivindicações para os órgãos indicados (sindicatos, MEC, associações de professores etc.).

– Que as Escolas entrem em contato com os Conselhos Estaduais de Educação para discutir a inclusão de disciplinas da área de Comunicação no currículo do I e II Graus, com base na Lei 5.692, da reforma do ensino, seguindo o exemplo da Bahia.

– Lutar pela criação de uma lei que obrigue as empresas a admitir um percentual de estagiários em relação ao seu quadro fixo, com renovação de admissão a cada quatro meses.

– O estágio deverá ser acompanhado pela própria Escola, para que seus objetivos de aprendizagem possam realmente acontecer.

– Os estudantes poderiam organizar pequenas empresas jornalísticas, de publicidade ou de relações públicas para, com suas atividades, satisfazer as exigências do estágio.

– Que se fiscalize a entrada de pessoas não formadas em Comunicação em jornais e emissoras de rádio e televisão.

5. Proliferação de escolas

a. Criação de Comissão Nacional para realizar estudos sobre a proliferação das Escolas, ligada à Executiva Nacional e à Abepec, para levantar e fornecer dados e participar da Comissão de Fiscalização do MEC. Uma comissão estadual se encarregaria de levantar a situação regional, levando em conta as escolas já existentes e as que estão para serem criadas

b. Que se procure racionalizar a criação de escolas em cada estado atentando para esses critérios: mercado de trabalho, condições materiais e corpo docente. Os estudantes não se colocam radicalmente contra a abertura de novas escolas, para não colaborar com a elitização cada vez maior da Universidade, e devem fazer pressão para só permitir a abertura de novas escolas que tenham boas condições de ensino.

c. Fixação de prazo de um ano para o aparelhamento material das escolas e regularização do corpo docente.

d. Que não sejam fechadas as escolas sem aparelhamento, tal como foi aprovado na IV Semana de Estudos de Jornalismo, em São Paulo.

e. Aprofundamento dos debates levando em conta uma visão global dos problemas, considerando a reforma universitária.

(*) Jales Naves, jornalista, um dos fundadores e eleito presidente do Centro de Estudos de Comunicação da UFG, em 1972, coordenou a Comissão Organizadora do I Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação e, como resultado desse trabalho, presidiu o Encontrão. Em 2017 idealizou as comemorações pelos 45 anos de formatura de sua segunda turma do Curso de Jornalismo da UFG e coordenou as iniciativas programadas.

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