O recomeço do Cooperativismo de Crédito em Goiás, após a reforma bancária de 1964, que impôs muitas limitações ao funcionamento das instituições financeiras cooperativas, teve características especiais, em relação ao País.

Havia uma luta, em várias frentes, coordenada pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), por mais espaço e mais oportunidades ao sistema para funcionar. As restrições legais não se justificavam e os líderes cooperativistas passaram a reivindicar mudanças ao Governo Federal, mais especificamente no Banco Central do Brasil, que na época tinha pouco conhecimento sobre o Cooperativismo de Crédito, não demonstrava maior interesse pelo segmento e mantinha as reservas antigas.

Paralelamente aconteciam experiências isoladas. Uma delas, e talvez a mais significativa, ocorreu em Goiás. O empresário Otávio Lage, que tinha sido Governador do Estado, de 1966 a 1971, era cooperativista em tempo integral e se dedicava às atividades na agroindústria que estava implantando em Goianésia, GO, foi o responsável pela mudança, com o exemplo que deu.

Sempre muito curioso e preocupado com a questão social, depois que implantou a Destilaria Goianésia, lendo os documentos sobre o tema, descobriu que um percentual expressivo de recursos financeiros gerados pela produção da cana-de-açúcar não ficava na região. O Programa Nacional do Álcool (Proálcool) fixava um percentual para ver aplicado na capitalização do produtor e na assistência social aos trabalhadores, recursos que iam para o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), sem muita ligação com Goiás e seus problemas.

Ele se informou mais sobre o assunto, pesquisou e decidiu brigar para que esses recursos fossem aplicados em Goiás. Uma ideia, a capitalização do plantador de cana, estimulou-o a ingressar noutro campo de batalha, agora maior, que era o Cooperativismo de Crédito e as restrições impostas pelo regime militar de 1964. Foi em frente, procurou os amigos que conhecia no âmbito federal e acabou conseguindo um feito, na época, muito difícil: a criação de uma Cooperativa de Crédito Rural, a primeira dessa nova fase em Goiás.

Surgia, em 1983, a Cooperativa de Crédito Rural dos Plantadores de Cana do Vale do São Patrício Ltda. (Coopercred), com sede em Goianésia, a primeira em Goiás na nova fase. Implantada, logo se capitalizou, começou a prestar serviços financeiros ao seu quadro social e se mostrou viável. Com sua atuação, serviu de referência para outras Cooperativas de produtores rurais também pleitearem ter o seu segmento de Crédito Rural, diante das dificuldades na área.

Veio a Constituinte, a luta foi grande e o resultado maior ainda com a Constituição Federal de 1988: o Cooperativismo ganhou a sua autonomia frente ao Estado, até então controlador e fiscalizador de suas atividades; e o Cooperativismo de Crédito ficou livre de muitas amarras oficiais, mas ainda continuou ligado ao Banco Central. O presidente da República da época, José Sarney, não perdeu a oportunidade de fazer a sua média com o setor: chamou todos os interessados, que já estavam com seus projetos aprovados pelo Banco Central, e concedeu, de uma tacada só, várias autorizações de funcionamento. Apenas em Goiás foram cinco.

Chamado por Otávio Lage para implantar o hoje Sicoob Coopercred, José Salvino de Menezes, também de Goianésia, teve um papel de destaque nesse processo. Um dos fundadores e segundo presidente da Cooperativa Central de Crédito Rural de Goiás (Cocecrer-GO), que serviu de modelo para outros estados, realizou um importante trabalho de desenvolvimento e consolidação do sistema em Goiás que o projetou nacionalmente. Foi um dos responsáveis pela criação e implantação do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob) e ocupou, por dois mandatos, a presidência da Confederação Nacional das Cooperativas do Sicoob, onde seu trabalho foi fundamental nesse novo momento.

Assim, a luta isolada de Goianésia, de repente, passou a contar com outras Cooperativas de Crédito Rural, agora não mais específicas de plantadores de cana, mas de produtores rurais e que já se expandem para toda a comunidade, como de livre admissão.

Conquistas que começaram em Goiás e ganharam o Brasil.

Este artigo foi publicado na edição de hoje de O Popular.

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