Texto de Jales Naves

Um empreendedor. Esta palavra resume a trajetória do goiano Jacy Coelho, que morou uns tempos em Uberaba, MG, onde se graduou em Odontologia, e passou uma temporada no Mato Grosso, período em que se dedicou à regularização de terras e a implantar projetos agropecuários. Depois, no início dos anos 1960 ele se mudou com a família para Goiânia, quando desenvolveu importantes iniciativas, como a implantação de projeto habitacional no setor Nova Suíça; e construiu o primeiro prédio de condomínio fechado. Em seguida, desenvolveu no município de Goianira o principal projeto de sua vida – a criação de gado Indubrasil e de suínos, a plantação de 250 mil pés de café, banana, côco e mamão papaia e, mais tarde, a implantação de um frigorífico para abate de bovinos.

Ele completou 90 anos no dia 4 de setembro último, data que comemorou com uma grande festa em sua Fazenda Santa Fé, e faleceu no último dia 29. Nesta segunda-feira, dia 4, às 19h30, será celebrada missa em intenção de sua alma, na Capela de Nossa Senhora das Graças, na Rua 4, Setor Central, ao lado do Centro de Convenções.

Jacy Coelho ( set 2019)

Trajetória

Desde muito cedo a vida propiciou a Jacy Coelho a oportunidade de lutar por novas conquistas, e ele nunca desperdiçou uma única. Foi atrás de todas, que transformou em projetos e frutificaram em realizações pessoais, profissionais, empresariais e sociais.

Tudo começou no final dos anos 1920 na pequena cidade de Catalão, na região Sudeste de Goiás, então com 15 mil habitantes, conhecida pela violência na política e que tinha, pouco conhecido, um registro histórico importante: o maior índice de alfabetização do Brasil, na época. Na política, a disputa entre duas famílias, Sampaio e Netto, irreconciliáveis, que se revezavam no poder municipal.

Seus administradores eram rigorosos e atrevidos. Jacy se lembrava do prefeito Leovil Evangelista, que havia plantado jardins na principal rua e um viajante, sem qualquer cerimônia, roubou algumas mudas. Tão logo o fato lhe chegou o Prefeito mandou prendê-lo e determinou que replantasse, de imediato, as mudas que havia retirado.

Outro episódio de que se recordava aconteceu com o prefeito Antônio Miguel Jorge Chaud, nomeado pelo governador Pedro Ludovico e que participou de reunião no Palácio das Esmeraldas, na qual o Chefe do Executivo Estadual, como sempre, falava ininterruptamente por longo período, sem contestações. De repente, para espanto de todos, Chaud, que era professor e escritor, pede a palavra e manifesta a sua não concordância com determinado assunto. O constrangimento foi geral. Acabado o encontro, todos retornaram às suas cidades. Uma surpresa desagradável ficou para Chaud, que encontrou sobre a mesa a sua demissão do cargo.

O dia 4 de setembro de 1929 foi de alegrias e comemorações na casa do marceneiro Rodolfo Coelho, goiano de Catalão, trabalhador, muito dedicado à sua atividade e respeitado na cidade. Nesse dia, sua mulher, Vicentina do Amor Divino Coelho, mineira de Araguari, 19 anos, deu à luz o segundo filho, Jacy, abrindo um novo momento na convivência familiar.

O casal morava numa casa ampla que o marido havia construído num terreno doado pela sogra Isméria Gomes, igualmente mineira de Araguari – ela comprou uma quadra em Catalão, construiu uma casa grande e a transformou numa pensão, onde se hospedavam as principais autoridades da cidade, como o promotor de Justiça José Júlio Guimarães Lima e o Delegado. Viúva, muito trabalhadora e destemida, ela precisava ter rendimentos para cuidar dos filhos e fez a opção por alugar os quartos de sua residência. Quando se casou novamente, seu marido trouxe os dois filhos que tinha, e o novo casal teve mais um filho.

A vida corria normalmente nessa cidade, então de poucos acontecimentos, uma rotina sem maiores surpresas. Vicentina, que não chegou a estudar e apenas se dedicava à família, teve dois outros filhos: José, o primogênito, e Jair. Quando estava com 25 anos de idade e o caçula tinha apenas nove meses ocorreu um grande abalo em seu meio: Rodolfo faleceu, aos 32 anos, do mal de Chagas, deixando-a com os três filhos menores.

O falecimento do marido trouxe algumas dificuldades iniciais, pois restou-lhe somente a casa onde morava. Sem maiores recursos para manter seus filhos, Vicentina foi ajudar sua mãe na pensão. Com o passar do tempo decidiu, ela também, ter a sua pensão.

Como sua casa, igualmente, era boa e grande, chamou um pedreiro amigo, Coutinho, que construiu mais oito quartos e dois banheiros, e a transformou numa pensão, o que lhe propiciou condições para criar os filhos. Mais tarde construiu igual número de quartos e banheiros.

Escola e família

Jacy fez os quatro anos do curso primário em sua cidade natal, no Externato Santana, da professora Rosenilva Santana e Silva, ‘dona Nhanhá’, melhor escola primária de Goiás naquele tempo. Muito rigorosa, dona Nhanhá fazia questão de ela mesmo acompanhar a vida de seus alunos e ao menor deslize, ainda que não fosse na escola, não perdoava e punia quem cometia a falta. A disciplina e o civismo eram uma constante: todos cantavam o Hino Nacional antes do início das atividades mais importantes na escola, e também, como religiosa, fazia questão dos momentos de orações, de rezar nos instantes que antecediam o começo das aulas.

Com a situação financeira sob controle, Vicentina pôde enviar Jacy para estudar em Uberaba, então um dos maiores centros urbanos no país, onde ficou dos 13 aos 17 anos. Foi morar na casa do tio, Saturnino Leite Barbosa, grande pecuarista, criador da raça Indubrasil, quando passou a se interessar mais por gado.

Aluno do Colégio Diocesano, na época uma escola da elite, que tinha só filhos de fazendeiros, fez parte do curso ginasial.

Foi um tempo de grandes agitações nessa cidade mineira, inclusive no meio esportivo. Ele treinava em duas equipes, do Fabrício e do colégio, e chegou a jogar no Uberaba Esporte Clube. Uma passagem dessa agremiação ainda permanecia em sua memória, transcorridos mais de 60 anos: o Atlético Mineiro, já um grande time estadual, de Belo Horizonte, tinha ido para a Europa, onde fez 10 partidas, ganhando todas; retornou ao Brasil e novamente teve mais duas vitórias, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, vencendo o Fluminense. Na sequência, foi àquela cidade para enfrentar o Uberaba, que estava bem, a disputa gerando muita tensão; um incidente não esperado trouxe um desencanto: a morte prematura de Sebastião Braz, um diretor que vivia pelo clube, pelo qual fazia de tudo. A tensão aumentou e a surpresa aconteceu em campo: os jogadores entraram de cabeça erguida para homenagear quem tanto fizera por eles e mudaram o momento, que tornaram histórico, ao vencer o time da Capital por 3×1.

Retornou a Catalão, onde concluiu o ginasial, por um período curto, de pouco mais de um ano. Era 1945, quando terminou a guerra. Aproveitou bastante sua estada na cidade, dançou muito, chegando inclusive a atuar no Catalão Esporte Clube, mais tarde transformado no Clube Recreativo Atlético Catalano (CRAC), que ainda disputa fases do Campeonato Goiano.

Uberaba voltou a ser a sua cidade em 1946, e ali concluiu o Científico, no Colégio Triângulo Mineiro, quando decidiu fazer um curso pelo qual tinha grande admiração: Odontologia. A Universidade de Uberaba (Uniube), fundada pelo escritor Mário Palmério, criou em 1947 a sua primeira unidade, a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro, e nela Jacy se formou em 1952, integrando a sua segunda turma.

A mãe vendera a pensão em Catalão e se mudara em 1950 para Uberaba, para dar oportunidade de estudo aos outros dois filhos. Lá, para assegurar um rendimento, montou uma pensão, que acolhia os estudantes daquela localidade goiana que iam para essa cidade mineira em busca de estudos mais avançados. Depois, montou a Padaria Tupã, que cedeu ao filho José, que ali estava morando, não dera certo na compra e venda de gado, havia se casado e precisava de uma atividade para manter sua nova família.

Caçula, Jair se mudou para o Rio de Janeiro, não continuou os estudos e decidiu trabalhar, começando pela Escola de Agronomia do Km 47. Muito trabalhador e empreendedor, comprava verduras para revenda na feira, e depois organizou-se no fornecimento desses produtos e carnes. Montou uma cozinha enorme em Campo Grande, RJ, passando a fornecer refeições aos presídios da Polícia Militar daquele Estado. O volume cresceu e chegou a prover até 40 mil refeições/dia. Dominava o mercado, servindo comida de qualidade. Defendia que o preso deveria ter uma profissão, trabalhar para pagar a sua manutenção, e auxiliou para que muitos fizessem curso de carpintaria e atuassem no conserto de móveis do Estado, que tinha uma grande despesa nessa área. Participou das discussões sobre a privatização dos presídios. Foi o primeiro goiano a receber o título honorífico de “Cidadão Carioca”. Faleceu em 2002.

Odontologia e o início difícil

Com o diploma de odontólogo nas mãos Jacy foi enfrentar o difícil mercado de trabalho, que oferecia poucas oportunidades, o que o fez retornar a Catalão, onde instalou seu consultório já no ano seguinte, 1953. Foi muito bem recebido, começou a trabalhar, mas logo enxergou que teria pouco futuro ali, cidade pequena, e pensou em alternativas.

Retornou a Uberaba, já tendo claro as dificuldades que iria encontrar, pois se graduara numa profissão, na época, nova, e que naturalmente não teria facilidades pela frente, Mas logo viu que aquela também não era a cidade onde iria se fixar profissionalmente.

A cabeça estava fervilhando, buscando novos caminhos. Primeiro, pensou em Três Lagoas, MG, e depois em Poconé, MT, para onde iria com um amigo. Conversando, encontrou-se com outro amigo, Gasparino, que o dissuadiu, oferecendo-lhe uma nova direção: Dourados, MT, que ficava a 90 km de Ponta Porã. Cidade nova, boa, bem organizada, atraindo investidores de todas as regiões do país (São Paulo, Minas Gerais, Paraná etc.), principalmente grandes empresas, logo chamou sua atenção. Um conhecido, José Nilo Paz, era gerente do Banco Nacional de Comércio da Produção, a única agência da cidade, estava em Uberaba naqueles dias, e logo saiu atrás dele. O encontro se deu no barbeiro, onde conversaram, o bate-papo o entusiasmou e ali saiu a definição que precisava.

Nesse ano, 1953, casou-se com a jovem e bonita Maria de Lourdes, uma companheira inseparável nesses 64 anos de união.

Malas prontas, rumaram para Dourados, onde foram acolhidos por José Nilo que, como gerente de banco, era a principal autoridade da cidade, muito respeitado e que passou a apresentá-lo a todos. Montou o consultório, com muito sucesso, e fez uma grande clientela. Um ano depois adquiriu um sítio de 15 alqueires, onde plantou café e criou porcos, e ali ficou por dois anos e meio, quando nasceram as suas primeiras filhas, Maria Eugênia e Maria Luiza.

Regularização de terras


Jacy Coelho (década de 1960)

As boas amizades formadas na cidade logo o indicaram para Cuiabá, onde montou consultório, com pouco movimento, sendo em seguida contratado como Dentista pelo Estado, com lotação no Hospital Psiquiátrico. A família ficou quatro anos na cidade, quando nasceram os outros dois filhos, Mariza e Luiz Fernando. Era o governo de João Ponce de Arruda, 1958, momento em que foi convidado para ser diretor do Departamento de Terras do Estado, que aceitou e assumiu.

Uma lembrança positiva desse período foi conhecer em Dourados a área desapropriada dos ingleses para implantação de uma Colônia Agrícola, dentro do processo de reforma agrária, administrada pelo Governo Federal. O sistema funcionou muito bem: eram lotes definidos, cinco alqueires cada, entregues a um colono e sua família para trabalhar a terra, oferecendo todo apoio, desde a assistência técnica ao atendimento médico-hospitalar, escola, mercado para fornecimento de gêneros de primeira necessidade etc. O agricultor tinha apoio e tranquilidade para produzir, dedicar-se à atividade.

Outro episódio, conforme Jacy, resumiu como se procedia naqueles tempos: um grupo invadiu uma fazenda toda organizada, com plantações bem feitas, gado e estrutura de produção montada, e colocou fogo. Tão logo ficou sabendo o proprietário chamou seus empregados, armou-os todos e foram enfrentar os invasores, matando seis deles. A partir desse caso não se verificou mais esse tipo de violência naquela região.

Nesse ano montou uma indústria de confecção de roupas na cidade.

Ainda em 1958 ele assumiu outra atividade, ao se tornar procurador pessoal do espanhol Antônio Peres Maldonado, que residia em São Paulo, onde tinha fazendas de criação de gado e plantação de café. Foi quando colocou os pés numa região inóspita do Alto Xingu, onde até então nenhum homem branco tinha estado. A serviço desse grupo, visitou a concessão que tinha para explorar 560 mil hectares em Barra do Garça, MT, entre os rios Koluene e Tanguro. Uma verdadeira aventura para quem estava na casa dos 20 anos de idade, enfrentando a mais inexplorada selva do planeta, conforme relatou ao jornal “O Xingu”, informativo da Associação dos Fazendeiros do Vale do Araguaia e Xingu, edição nº 49, de fevereiro de 1995. Descendo o rio Koluene até a barra do Tanguro, que a partir daí passa a se chamar Xingu, foi demarcar a Gleba Tanguro, nascedouro de numerosos empreendimentos posteriores, com fazendas que hoje são a própria história do Alto Xingu.

Entrosou-se no negócio imobiliário e ganhou muito dinheiro.

Conseguiu do Governo mato-grossense concessão para abrir uma fazenda de 220 mil hectares, projeto que tomaria forma definitiva em 1961 quando passou a formar a Fazenda Jaú, na margem esquerda do rio Suiá Missu. Para as empreitadas contava com mão-de-obra as mais inesperadas, como foi o caso dos Xavantes, que o ajudaram a abrir a fazenda, e antes na região do Koluene, trabalhou na mais perfeita paz com os índios Kalapalos.

Ainda nesse ano obteve permissão governamental para exploração de 150 mil hectares na margem esquerda do rio Xingu, na área onde está a cachoeira Von Martius, uma região que posteriormente teria parte de sua área incorporada ao Parque Nacional do Xingu e outro tanto para a Reserva Capôto, reduzindo a área do fazendeiro para 45 mil hectares.

Em 1959 e 1960 estudou na Faculdade de Direito de Cuiabá.

O Natal de 1960 foi com a família em Uberaba, quando decidiu buscar um novo destino, com duas opções pela frente: Brasília, que estava surgindo e com muitas oportunidades, e Goiânia, igualmente em expansão e também aberta a novos investidores.

Mudança para Goiás

Retornando para Cuiabá, com a família, decidiu passar uma noite na Capital goiana. Era janeiro de 1961.

Hospedou-se no Hotel Marmo, no Centro, e saiu para dar umas voltas pela cidade, que o entusiasmou. Já conhecia o piloto Alan Kardec, que levava pessoas para verem terras no Mato Grosso, e conversaram bastante. Depois, na reunião em família, mostrou a alternativa que se apresentava, um novo e acolhedor centro urbano, que já tinha em torno de 100 mil habitantes, ruas largas e limpas, e crescia num ritmo muito acelerado. Decidiram se mudar. Voltaram para Cuiabá, tomaram as providências necessárias, fizeram as malas, e menos de cinco meses depois, no dia 15 de maio, já se fixavam na Rua 9, entre a Av. Anhanguera e a Rua 4, no Centro.

De início, providenciou a transferência para o Curso de Direito da Universidade Católica de Goiás, por onde se graduou em 1963, primeira turma. Achava a profissão boa, que exigia muita dedicação, mas não chegou a advogar, mesmo tendo feito o Curso de Especialização em Direito Agrário, uma área que conhecia muito. Ao mesmo tempo, montou o consultório odontológico; no convívio com os profissionais do setor sentiu uma deficiência: apenas três clínicas faziam exames de Raios X. Voltou a Uberaba, fez um curso de especialização, adquiriu os equipamentos, instalou-os e a aceitação foi enorme.

Como manteve negócios em Mato Grosso e precisava viajar de vez em quando para Cuiabá, convidou um colega para trabalhar com ele, o dr. Lamar Lamounier, Mais adiante, as atividades crescendo, sentiu que a odontologia não correspondia às suas expectativas, conversou com esse profissional e transferiu para ele seus clientes e seus equipamentos.

Projetos habitacionais

O crescimento de Goiânia chamou a sua atenção e resolveu investir na área da construção civil, passando a se dedicar à edificação de sobrados, uma novidade naquele momento. O primeiro, no Setor Sul, foi um sucesso, e logo vieram mais 15. Era a região, na época, que concentrava o maior número de casas. A rua 83 não tinha asfalto; a rua 84 ia até a Praça do Cruzeiro; e a rua 85 existia até o Posto do Ratinho.

Indo um pouco mais adiante, conheceu o setor Nova Suíça, ainda sem infraestrutura, mas numa área de expansão, e viu boas oportunidades de investimento. Era o ano de 1968. Comprou alguns lotes e resolveu construir. Esteve com o diretor da Caixa Econômica Federal em Goiás, Thirso Corrêa Rosa, e com o diretor da Carteira Habitacional, coronel Eurides Curvo, e acertaram o financiamento dessas construções, quando fez 50 casas, que vendeu rapidamente.

Na sequência, comprou 500 lotes nesse setor, perto da Praça do Nova Suíça, por intermédio do advogado João Afonso Borges, de quem se tornara amigo. Acertaram que o pagamento seria feito na medida em que as casas iam sendo construídas e vendidas.

O projeto cresceu e resolveu buscar uma fonte de financiamento maior. Procurou o diretor de Crédito Habitacional do Banco da Bahia, Eudoro Lemos, que depois veio para Goiás e presidiu a Telegoiás, construindo a sede da empresa na rodovia BR-153, que tem o seu nome. Os entendimentos evoluíram satisfatoriamente, mas o gerente da agência de Goiânia, na época, opinou de forma contrária, não aconselhando o financiamento das obras, afirmando que não era um bom negócio.

Jacy teve que ir à Presidência do banco em Salvador, BA, para apresentar suas argumentações, quando mostrou em detalhes a importância do projeto, a sua localização estratégica, numa região em crescente expansão. Chegou, inclusive, a falar de forma mais contundente, ao ponto de se levantar e fazer uma observação que impressionou o dirigente do banco:

– “A área fica na região sul, que tradicionalmente é a que mais cresce numa cidade, tem boa aceitação e vai ser um negócio muito importante também para o banco. Convido o sr. a conhecer as obras para verificar pessoalmente o que estou afirmando”, disse.

Ele se entusiasmou, aprovou o negócio, veio visitar as construções, ficou satisfeito com o que viu e, ao final, além de reafirmar a aprovação do projeto, demitiu o gerente.

Como o setor carecia de infraestrutura, esteve com o prefeito de Goiânia, Íris Rezende Machado, para solicitar o asfaltamento da rua 85 até a av. T-63 e da av. T-63 até a praça do Nova Suíça. Naquele momento, o asfalto ia somente até a Praça do Ratinho, e havia, na sequência, o Colégio Marista, algumas casas e o conjunto Alfa & Beta. Ele concordou com o pedido, mas disse que não tinha recursos para realizar a obra.

Jacy se lembrou de um primo, o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa, que era secretário particular do ministro das Relações Exteriores, Magalhães Pinto, que procurou, explicando-lhe a situação. Ele indicou que fosse ao presidente do Banco da Bahia, Clemente Mariano, que fora ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, para conseguir esse financiamento da obra.

As tratativas evoluíram a bom termo, mas quando iam marcar uma audiência cm Íris para discutir detalhes da proposta veio a cassação de seu mandato pelo regime militar.

No final, no melhor conjunto habitacional feito em Goiás, construiu 180 casas, que contavam com energia elétrica, água de 10 poços artesianos, fossa etc., e depois vendeu os lotes restantes. Quando as obras haviam sido concluídas, o Banco Nacional da Habitação (BNH) enviou um coronel do Exército para fazer a vistoria de liberação, elogiou o trabalho realizado, e deu sua aprovação.

Foram três anos para vender essas unidades, que, no final, deram-lhe um grande prejuízo. Para não prejudicar ninguém, decidiu vender a casa que estava construindo para residir, na rua 84, esquina com a rua 104, no setor Sul, mesmo com o pessoal dizendo que não era preciso, juntou o dinheiro e pagou os fornecedores e pessoal restante.

Ainda na área da construção civil realizou mais um grande empreendimento, em 1976, ao levantar o primeiro prédio de condomínio fechado em Goiânia, o edifício Conde dos Arcos, na rua 2, Centro, com 12 andares, que vendeu aos principais empresários da época, como Cláudio Meireles. Odilon Santos adquiriu um andar, instalou-se com a família, mas a mulher não agradou do local e tiveram que se mudar.

Jacy aproveitava os momentos de folga para conversar. No final de tarde, lá pelas 17h, saía pra fazer novas amizades e conhecer um pouco mais da cidade e de sua gente. Ia às lojas para papear com seus proprietários, como Luziano Martins Ribeiro, do Novo Mundo, e o alfaiate Daniel Viana. Um detalhe de que se lembrou: nesse período, como tinha umas lojas disponíveis, na av. Anhanguera, Daniel as cedeu a Luziano para aumentar seu espaço e começar o crescimento de sua rede de lojas.

Projetos agropecuários

Em 1967, ainda mantendo negócios em Mato Grosso, abriu a Fazenda Santo Antônio e em seguida a Fazenda Malu (local onde está o Posto Malu), às margens da rodovia BR-158. Com o passar dos anos estes empreendimentos viriam se desdobrar em fazendas que são um marco na colonização do Vale do Araguaia e Xingu, como as fazendas Guanabara, Suiá Missu, Tamakavi e Três Marias (Campo do Maurício).


Jacy Coelho (década de 1960)

Como todo pioneiro que adentrava aqueles ermos, Jacy ia atrás de terras para a formação de boas pastagens. Nesta lida, conviveu com conhecidos personagens da história do nordeste mato-grossense, como Ariosto da Riva, Orlando Ometto, Abelardo Vilela, Zezinho da Reunidas, Paulo Cruz Monteiro e outros.

As investidas dele em Mato Grosso foram intensas até 1976, quando esfriou seus empreendimentos devido à instabilidade da política financeira para o setor agropecuário. Assim ficaram suas propriedades até 1985, bem localizadas entre as BRs-158 e 080, e que seriam reduzidas paulatinamente em um investimento único na região: a Fazenda Santa Helena, de criação de bovinos para corte, no município de Colíder.

No final dos anos 1960 deu início a um novo projeto, agropecuário, para a criação de gado Indubrasil, conseguindo uma carta de incentivos para obter financiamento específico. Ao investir em Goiás, comprou em 1976 uma área de 40 alqueires no município de Goianira, próximo da Capital, que denominou Fazenda Santa Fé, onde desenvolveu a suinocultura, plantou e industrializou café, na Torrefação Café Crioulo.

Nessa fazenda, plantou 250 mil pés de café, banana, côco e mamão papaia, e criou gado Indubrasil. Para o plantio do côco híbrido, em 1986, buscou cinco mil mudas no Rio Grande do Norte. Alguns anos depois um grupo de trabalhadores sem terra invadiu essa plantação e ateou fogo, provocando um grande prejuízo.

No projeto, o seu pioneirismo na pecuária, ao patrocinar o primeiro transplante de embrião, trazendo do México, um dos grandes criadores da raça, um dos maiores especialistas para os procedimentos veterinários.

Posteriormente, reduziu a plantação de café, que empregava mais de 100 pessoas, para implantar um moderno frigorífico na fazenda, o Frigoiano, para o abate de 500 reses por dia, que foi inaugurado em 1993, com a presença do governador Íris Rezende. Suas instalações, seguindo as mais rigorosas exigências técnicas, de segurança e de higiene, foram consideradas as melhores do país, na área. Nesse ato, o Governador prometeu-lhe asfaltar o trecho de oito quilômetros da empresa à rodovia GO-060, autorizando os órgãos da área, CRISA e DERGO, a executar a obra, o que não ocorreu.

Pela ousadia do investimento e pela seriedade como conduzia cada projeto alguns amigos, em conversas, consideravam seus planos muito arrojados e que ela era doido.

Em 1995, uma crise difícil praticamente inviabilizou a atividade frigorífica, obrigando-o a fechar o empreendimento. Sempre preocupado com os parceiros, reuniu os 32 pecuaristas que lhe forneciam o gado para abate para uma negociação das dívidas, que giravam em torno de 900 milhões de reais, já que muitos não acreditavam que tomaria tal atitude. Para eles, todo dono de empresa era malandro, não honrava compromissos. Nessa reunião mesmo, antes de ser aberta, alguns faziam esses comentários maldosos, procurando disseminar a revolta entre seus pares.

Como tinha o dobro do valor da dívida para receber, Jacy explicou em detalhes sua proposta, de pagar cada um em prazo definido, e pediu prazo para o acerto. Assim feito, cumpriu rigorosamente as negociações.

Na sequência, arrendou o frigorífico para dois paulistas, Manolo e Faria, que não pagaram e lhe deram outro grande prejuízo financeiro.

Em 2002 reassumiu o Frigorífico Boa Vista e passou a contar com a colaboração do filho, Luiz Fernando, na condução dos negócios, quando recuperou a empresa e as atividades. O caçula começara o Curso de Engenharia, abandonou, casou-se e nesse ano decidiu ajudá-lo na gestão do empreendimento.

Em 2014, antes de uma reunião do governador Marconi Perillo em Goianira, que chamava de Governo itinerante, Jacy escreveu uma correspondência ao jornal “O Popular”, de Goiânia, que a publicou em sua seção de ‘Cartas do leitor’. No documento, queixava-se do desprezo do Governo para com a atividade empresarial, não cumprindo o que prometia e enumerou o papel do empresário: dá empregos, paga impostos, movimenta a economia, enfim, mantém o Governo, nada recebendo em troca, que não era valorizado. Citou o asfaltamento daquele trecho de oito quilômetros entre o frigorífico e a rodovia, que ficava intransitável na época das chuvas.

No mesmo dia, o secretário de Indústria e Comércio do Estado, Alexandre Baldy, telefonou-lhe, convidando-o a visitar a SIC para conversarem a respeito de suas reivindicações e se comprometeu em encaminhá-las. No dia da reunião, estando presente, Baldy o convidou para um encontro com o Governador, quando despachou favorável ao pleito, encaminhado à Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop); do total, o frigorífico contribuiu para o asfaltamento de dois quilômetros.

Participação social e em entidades

Já definitivamente instalado em Goiânia, Jacy começou a participar das mais diversas atividades sociais e econômicas, sem se envolver com a política partidária, com a qual sempre manteve certa distância. Em 1986 filiou-se ao Lions Clube Goiânia Sul, que presidiu, quando pôde atuar na assistência social aos mais desfavorecidos; destinou uma área em sua fazenda ao plantio de arroz, doado para a vila São Cottolengo, em Trindade.


Jacy Coelho, dona Lurdinha e uma neta

Nos anos 1980 filiou-se ao Sindicato Rural de Goianira, que também presidiu, na preocupação em apoiar seu amigo pecuarista, Salvador Farina, na disputa pela presidência da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (FAEG). Antes, participou da associação dos cafeicultores, ajudando a fundar o Sindicato da Indústria do Café; foi escolhido para presidi-lo.

Pecuarista, era entusiasmado com uma raça que surgiu na cidade mineira onde estudou e se tornou uma das principais vertentes da pecuária brasileira. Foi o resultado do cruzamento de duas raças indianas, Gir e Guzerá, inicialmente chamada de Induberaba, quando decidiram torná-la nacional e passaram a denominá-la Indubrasil. Com seus animais participou de várias exposições agropecuárias pelo Brasil, ganhando muitos troféus. Gado excelente para cruzamento industrial, está presente no Nordeste brasileiro e em países como o México, a Colômbia e a África do Sul.  Ele próprio exportou muitos animais para outros países, como a Tailândia.

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