José Ferreira da Silva e sua ida para Goianira

A MUDANÇA DE NOME EM FUNÇÃO DE UMA
PENDÊNCIA DO PASSADO QUE ELE NÃO CRIARA

Capitão do mato implacável, que não deixava escapar um escravo fugitivo,Joaquim Lemes da Silva criou uma lenda no Triângulo Mineiro em torno de seu nome, de capturar todos que conseguiam fugir das fazendas que monitorava, em especial em Uberaba. Ao mesmo tempo, lançou uma maldição sobre sua família, diante das ameaças de morte sobre ele e seus filhos, como retaliação pelo que realizava. Isso aconteceu no século anterior, antes da Lei Áurea, que acabou com a escravidão humana no Brasil, e foi lembrada pelo neto, Miguel Ferreira da Silva,para justificar a mudança do nome de família.

Joaquim era poderoso e tinha a proteção dos fazendeiros a quem servia,tanto que ninguém conseguia atingi-lo enquanto estava vivo. Seu rigor era tanto que não aceitava a interferência de ninguém, nem mesmo de uma filha, Bárbara, que foi pedir por um escravo e acabou levando chicotadas. Morreu de derrame, e as ameaças contra seus descendentes se ampliaram, quando eles tomaram uma decisão. Para fugir dessa situação que não criaram, os filhos José e Miguel juntaram o gado que tinham, algumas trouxas de roupas, utensílios domésticos e alimentos, e resolveram enfrentar uma longa caminhada,atravessaram o rio Paranaíba com os animais e chegaram até o Sul de Goiás, onde se sentiram um pouco mais seguros.

José Ferreira e Ana
José Ferreira e Ana

José Lemes da Silva gostou de Morrinhos, GO, comprou umas terras, organizou seu espaço, ali se casou e nasceram os primeiros filhos. Alguns anos depois eles se transferiram para o então município de Campinas, onde se fixaram em definitivo e nasceram outros descendentes, já no povoado de São Geraldo. Certo dia, quando foi ao Cartório registrar os filhos, contou sua história para o escrivão, José Rodrigues Naves Júnior – de quem se tornou muito amigo e sempre o acompanhou politicamente – quando ouviu dele a sugestão: mudar o sobrenome, tirando o Lemes e passando a assinar Ferreira. Proposta acatada, nasceu aí José Ferreira da Silva.

Feita a alteração, ele se esqueceu de contar para os familiares. Tanto que, mais tarde, em 1982, quando o filho Geraldo, já advogado,esteve em Morrinhos para solicitar uma cópia da certidão de casamento de seus pais, disse o nome dele, a escrevente consultou os livros e não encontrou nenhum registro. Ele insistiu, dizendo que era seu pai, que tinha casado naquela data e cidade e que precisava do documento, mas nada foi localizado nos livros. Indignado, voltou a Goianira, explicou para as pessoas, quando alguém o chamou num canto e o alertou para a mudança do nome em função daquela maldição que incomodava a família. Tanto que ele não podia ver um negro que mudava de direção.

José Lemes da Silva, que nasceu em Passos, MG, no dia 8 de agosto de 1895,mudou-se para Morrinhos, onde conheceu Ana Januária da Rocha,mineira de Uberlândia, com quem se casou no dia 12 de junho de 1917.Nessa cidade do Sul goiano teve um sítio, de uns dois alqueires,chamado Contendas, e ali nasceram as primeiras filhas: Ana, Divina e Joaquina.

No início da década de 20 do século passado eles decidiram buscar novos espaços e a opção foi pelo então município de Campinas,quando compraram uma parte da Fazenda Boa Vista, perto do rio do Peixe, em torno de 105 alqueires. Todo ano ele tinha um compromisso inadiável: pagar o imposto da terra, quando fez amizade com os Caiado, em especial com Brasil Caiado, com quem quitava o tributo.

Na época vieram também os seus irmãos Miguel, Maria, Bárbara e Tuta, todos assinando Lemes da Silva.

Desde o início sempre procurou colaborar com as iniciativas sociais, como na construção da primeira igreja, ainda de madeira, nos anos 20, e da segunda, já nos anos 40.

Como fez amizade com o governador Pedro Ludovico Teixeira, José Ferreira cedeu sua fazenda para a realização da primeira reunião social no lançamento da pedra fundamental de Goiânia, matou duas vacas para o churrasco e recebeu muita gente. O Governador quis recompensá-lo, cedendo uma quadra na Rua 1, no centro da futura Capital, mas ele não soube aproveitar a gentileza de Pedro Ludovico e acabou perdendo os lotes.

Vicente, Sebastiana, Miguel, Joaquina, Geraldo, Divina, Naninha, Nezica e Maria Luzia
Os filhos Vicente, Sebastiana, Miguel, Joaquina, Geraldo, Divina, Naninha, Nezica, Maria e Luíza.

A partir da posse da terra, na Fazenda Boa Vista, com a ajuda de companheiros e familiares, derrubaram a densa mata para formar, na enxada, “no chão tocado”, as lavouras de café, que chegaram a ocupar 45 alqueires. Mais tarde, já no início dos anos 40, seu genro, Farnésio Cristiano Ribeiro, um mineiro que se casara com sua filha Joaquina, foi responsável pela plantação de umas oito mil covas de café – a terra, seca e cheia de cupim, não ajudou muito.

No momento do plantio todos participavam, em especial da formação das lavouras de café, desde a capina à manutenção, como rodízio, e às vezes ao mesmo tempo eram cultivados o milho, o feijão e arroz,em pequenas quantidades, vendidos ali mesmo. As lavouras para sustento ocupavam de um a 1,5 alqueire.

Com a insegurança na atividade agrícola, a família partiu para a criação de gado. O caçula Miguel lembra que o primeiro ferreiro na região foi Pedro Gomes, que fabricava as marcas de gado.

A amizade com padre Pelágio também era estreita, de mútua confiança,começou na construção da primeira igreja, de tábua, e se ampliou na compra dos tijolos necessários para a construção da nova igreja, 20 anos depois, nas duas olarias que existiam na região, dos irmãos José e Joaquim Vicente da Silva, na barra do córrego Mata Pasto com o Rio do Peixe. O sacerdote fazia os pedidos de tijolos, ele os encomendava e depois o pároco vinha com as sacolas de dinheiro para o pagamento. A madeira era recolhida das fazendas próximas e serradas “no braço” por Geraldo Mineiro; e a areia retirada do córrego que passava nos fundos da fazenda de Zé Ferreira. A obra demorou, e aquelas paredes altas acabaram se transformando num local para brincadeiras das crianças, que pulavam do buraco das janelas, uns três metros acima do chão, no monte de areia.

O filho Miguel, que estava sempre por perto, acompanhando o pai, lembra-se ainda de um detalhe que passou desapercebido para muitos: Padre Pelágio sempre carregava, em sua bolsa, um revólver 38. E também do dia em que o sacerdote foi montar o seu cavalo castanho quando, por um descuido, o animal se estranhou, e ele deixou escapar um “desgraçado”. Nem se apercebeu do espanto de alguns presentes, que ficaram assustados com o ‘palavrão’ que proferiu.

As duas filhas mais velhas, Ana e Divina, casaram-se com dois irmãos, Parcial e Otávio Ferreira da Silva, que não eram parentes, nasceram na região e sempre trabalharam a terra. Depois, Joaquina uniu-se ao mineiro Farnésio.

No final dos anos 30 o italiano Nicola Dangoni decidiu vir para o Brasil, chegou uns quatro anos antes, no navio São Gotardo, estabeleceu-se em Ribeirão Preto, SP, e depois buscou a mulher, Josefina Massaroli, e os filhos Francesco, Rubens, Santos, Marcílio, Wilson, Nena e Aparecida. Em seguida, atendendo ao chamamento para trabalhar na pedreira, na região do Lajeado, de onde eram extraídas as pedras para a construção de Goiânia, arrumou suas coisas e trouxe a família. Um dos filhos, Santos, conheceu Conceição, o namoro foi rápido e logo estavam casados, e transmitiram aos filhos a importância dos estudos. Segundo filho, que nasceu no dia 20 de junho de 1945, Iron seguiu os conselhos dos pais e formou-se em Medicina, pela Universidade Federal de Goiás, em 1977, atuando como intensivista; político, elegeu-se Prefeito da cidade (1993-1996) e continua atuando na Medicina em Goianira; casou-se com Carmem Lúcia de Paula, goiana de Paraúna, e eles tem um herdeiro, Iron Dangoni Filho, que seguiu a carreira do pai, é médico. Outros cinco filhos do casal também estudaram – Wilson é engenheiro; João é médico;Antônio é economista; Márcia fez Matemática e Aparecida é jornalista; a primogênita Márcia preferiu o casamento e Domingo não quis ir para a escola.

Antônia casou-se com Celso, Sebastiana com Orlando de Pádua e Luzia com Abílio de Paula Ramos.

Nascido em 1932 no antigo povoado de São Geraldo, Vicente Ferreira da Silva teve cerâmica, produziu arroz e milho e plantou um pomar de mexericas Ponkan, com nove mil pés. Casou-se com a sobrinha Valdira Maria da Silva, também nascida em São Geraldo, em 1941, filha de Cezoste Francisco Americano, mineiro de Patos, e Maria Corina de São José. Vicente e Valdira tiveram quatro filhos: Carlos Roberto, em 1962; Daniel, em 1964; Marcelo, em 1965; e Sandra Maria, em 1966. A caçula casou-se com Paulo Roberto de Oliveira França, tiveram um laticínio, e hoje ela cuida da Farmácia Gracimara, que comprou do tio Geraldo e é comandada pela filha, Fabiana Ferreira França de Araújo, graduada em Farmácia e Bioquímica pela Unip; o segundo filho, Alexandre, é veterinário.

Geraldo Ferreira da Silva, que nasceu em 1937, graduou-se em Direito pela Universidade Católica de Goiás e atuou como advogado por mais de 30 anos. Político, elegeu-se vereador à Câmara Municipal de Goianira, 4ª Legislatura (1971-1972), sendo eleito 2º secretário da Mesa Diretora e membro das quatro comissões técnicas; presidiu o Diretório Municipal da Aliança Renovadora Nacional (Arena), e foi Tesoureiro da Prefeitura na gestão de José Rodrigues Naves Júnior(1970-1972). Teve a Farmácia Gracimara, por 20 anos. Casou-se com Divina Maria Fernandes, nascida em Goianira e filha de Antônio Honorato Fernandes, mineiro de Patrocínio, e Jandira Maria Fernandes. O casal tem duas filhas: Graciely, médica, e Mara,advogada.

Uma de suas iniciativas na Câmara Municipal, que contou com o apoio do prefeito Naves Júnior, foi mudar a denominação da Avenida Goianira para Av. JoséFerreira da Silva, em homenagem ao pioneirismo e ao trabalho de seu pai na cidade.

Caçula, Miguel é de 1940, foi criado na atividade rural, à qual continuou se dedicando, mais com gado de cria, vacas paridas, para a produção de queijo e creme. A mula de seu pai, Zé Ferreira, ganhou o nome de ‘Goianira’, dado pela filha Antônia antes mesmo do povoado mudar para essa denominação. Casou-se com Maria Labella, que veio da Itália com quatro anos de idade, acompanhando seus pais, Giovanni Labella, da região de Venáfro, e Iolanda Ianaconne, no navio ‘PaoloToscarelli’. Durante um período, Miguel manteve hortas de chuchu, utilizando técnicas aprendidas com o sogro. Dos filhos, Marcos trabalha com hortaliças, seguindo a tradição do avô materno; Marlos seguiu os passos do pai e cria gado; Márcio mora na Inglaterra; e Marlen ajuda o pai na fazenda.

(Texto extraído do livro “São Geraldo / Goianira – O surgimento do povoado e a trajetória de pioneiros. Documentos registram a construção do distrito e da cidade, do jornalista Jales Naves, publicado pela Editora Naves)

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