Maria Custódia Naves de Oliveira e João Jacob Cardoso

No coração do Triângulo Mineiro, em terras ainda marcadas por antigas trilhas de tropeiros, ergueu-se a história de um casal cuja descendência se espalharia por cidades, fazendas e gerações inteiras: João Jacob e Maria Custódia de Oliveira Naves. A união dos dois, celebrada em 1880, na modesta Igreja Matriz do povoado de Água Suja, não marcou apenas o início de uma vida conjugal, mas o encontro de duas das mais tradicionais linhagens que moldaram a formação da região.

Após o casamento, Maria Custódia, então com 21 anos, e João Jacob instalaram-se na Fazenda das Aroeiras, na Freguesia de São Miguel da Ponte Nova, território então pertencente ao município de Sacramento, MG, local que mais tarde daria origem à cidade de Nova Ponte, MG. Foi ali que construíram uma família que viria a se tornar numerosa, influente e profundamente enraizada na história regional.

Os Quinze Filhos

De João Jacob e Maria Custódia vieram 15 filhos, que, ao longo das décadas, formariam ramos robustos e distintos. Maria Custódia faleceu em 1903, no parto de um filho do sexo masculino, que seria o seu décimo sexto filho. Tiveram uma descendência numerosa que se espalhou pelo Triângulo Mineiro e arredores, cada ramo carregando a história e os valores da família.

Seus filhos e seus netos foram:

  • Maria Benevides Jacob, casada com Limírio Afonso de Almeida, teve três filhos: Claudionor, Clotilde e Adilon.
  • Acácio Jacob, casado com Ambrosina, com quem teve nove filhos: Maria, Pedro, Derotides, Clodoveu, Elmo, Erotides, João, Adelina e Florípedes.
  • Manoel Benevides Jacob (Nequinha), casado com Blandina de Ávila Lemos (Rolinha), teve nove filhos: Sílvio, Laís, Waldomira, Edith, Manoela, Geraldino, Hipólito, Otávio e João.
  • Adélia Benevides Jacob (foto), casada com Joaquim Antônio de Ávila (Zico), teve doze filhos: João, Iracema, Joaquim, José, Doraci, Maria, Jenusval, Dinorah, Adélia, Manoel, Eugélia e Renato.
  • Belmira Benevides Jacob, após a morte da irmã Maria, casou-se com o cunhado Limírio e teve nove filhos: Rui, Clodoveu, Rita, Lair, João, Célio, José, Gil e Geli.
  • Jacob Penaforte (Nhô), casado duas vezes — primeiro com Maria Alcântara, com três filhos: Epaminondas, Maria e Adélia; e depois com Anna Rosa Naves, com mais dois filhos: Francisca e Jacó.
  • Antenor Jacob Penaforte, casado com Maria Alonso Pérez, teve cinco filhos: João, Gisele, Giselda, Jackes e Maria Zélia.
  • Ana Benevides Jacob (Dona), casada com Olímpio Fernandes Rabelo, teve dez filhos: Odilon, Manoel, João, Alcidina, Guiomar, Osvaldo, Demerval, Adélia, Alcides e Durval.
  • Dolores Benevides Jacob, casada com Gerson Tavares, teve cinco filhos: Leônia, Lia, Lélia, Lúlio e Lígia.
  • Ilmovir Jacob de Rezende (Vitinho), casado com Maria Cândida de Ávila (Nica), teve onze filhos: Zaida, Zilda, João, Maria, Dionéia, Aparecida, Ilda, Ilca, Jaime, Gildo e Adélio.
  • Benvinda Benevides Jacob, casada com João Evangelista de Castro (Neftali), teve sete filhos: Maria Isabel, Maximina, Ilmovir, Nestor, João, Euclides e Odacir.
  • Dolmevir Jacob, casado duas vezes — primeiro com Maria Montandon, com seis filhos: Célia, Carlos, Josefina, Ione, Maria e Cássia; depois com Maria Augusta Jacob (Lilia), com oito filhos: Dirson, Dali, Divino, João, Dirse, Denísia, Delma e Ana Maria.
  • Adilon Jacob, casado com Adélia Ramos, teve seis filhos: Adair, Antônio, Agnaldo, Arlete, Teomilda e Terezinha.
  • Adelaide Benevides Jacob, gêmea de Adilon, casada com Francisco Gomes (já era viúvo com cinco filhos), teve doze filhos: Joel, Laor, João, Alcina, Eteneval, Maria, Orlinda, Ormesinda, Jeová, Nair, Jair, Luzia e Pedro.
  • Maria Isabel Jacob (Nenê), casada com Aníbal Salgado, não teve filhos.

Com o tempo, cada descendente seguiu seu próprio caminho pelo Triângulo Mineiro e regiões vizinhas. Maria, Adélia, Belmira, Ilmovir, Dolores e Dolmevir deslocaram-se para Araxá, MG, enquanto Acácio permaneceu em Nova Ponte. Antenor e Adilon estabeleceram-se em Estrela do Sul, MG; Manoel mudou-se para Patrocínio, MG, e Ana formou sua família em Uberlândia, MG. Benvinda fixou residência em Araguari, MG, e Adelaide estabeleceu-se em Corumbaíba, GO, levando adiante a memória e os valores da família.

Benvinda Benevides

Adélia e Benvinda casaram-se no mesmo dia, em 1909 — Benvinda com apenas 15 anos e Adélia com 24. O genro Joaquim Antônio (conhecido como Zico), marido de Adélia, contava que vira a noiva apenas uma vez antes do casamento e que, no próprio dia, teriam levado a mais velha, tanto é que Adélia era três anos mais velha que ele, o que era incomum para a época. A vida das duas, porém, seria curta: Benvinda faleceu em 1928, após ser mãe de sete filhos, e Adélia em 1931, depois de ter doze filhos, ambas vítimas de câncer de útero. Maria, a irmã mais velha, já havia partido antes, em 1906, após complicações em um parto, assim como a mãe Maria Custódia.

Árvore Genealógica de

João Gonçalves Benevides de Resende

A história de João Jacob começa antes mesmo de seu nome. Nascido João Gonçalves Benevides Resende, recebeu posteriormente a alcunha de João Jacob em homenagem ao pai, Jacob Gonçalves Cardoso. A mudança refletia tanto o costume rural de encurtar nomes quanto o desejo de manter viva a ligação com a linhagem paterna, tornando-se um sobrenome.

Jacob, o pai, era filho de João Gonçalves Cardoso e Ana Agostinha de Souza Benevides, famílias que cruzaram caminhos com os Resende, Cardoso e Benevides, entrelaçando tradições, agricultura, criação de gado e o espírito pioneiro que marcou o desbravamento do Triângulo

Pela mãe, Anna Luciana de Resende, João Jacob herdou a firmeza dos Resende e dos Alves Pereira. Anna Luciana era filha de Manoel Fernandes de Resende e Luciana Alves Pereira, ambos descendentes de antigos moradores das serras e vales mineiros.

João Jacob nasceu em uma família numerosa e tinha diversos irmãos. Entre eles estavam Ana Gonçalves de Resende, que se casou com José de Sousa Resende; Irinea Amélia Gonçalves de Resende; José Gonçalves Benevides Resende, casado com Luiza da Costa Resende; Manoel Gonçalves Benevides Resende, que se uniu a Maria Vergelina de Oliveira; Genoveva Gonçalves Benevides de Rezende, esposa de Ignácio Mendes do Nascimento; Maria Gonçalves de Resende, que se casou com Joaquim Caetano Mendes do Nascimento; Bárbara Gonçalves de Resende, unida a Francisco Fernandes Pereira; e, finalmente, Amélia Gonçalves de Resende, casada com Manoel da Costa Resende. Essa família se destacava por seus fortes laços e conexões que se estendiam a várias outras famílias importantes da região.

A árvore genealógica de João Gonçalves Benevides de Resende revela uma história típica das regiões centrais de Minas Gerais entre os séculos XVIII e XIX, com raízes que remontam ao período colonial e à ocupação portuguesa nas áreas mineradoras da capitania. Pelo lado paterno, a família é predominantemente mineira, com registros em localidades como Tiradentes, Curral Del Rei (atual Belo Horizonte), Barbacena e arredores, todas intimamente ligadas ao Ciclo do Ouro. Luís Cardoso Osório de Andrade, nascido no Porto em 1708, marca a chegada desse ramo à região durante os primeiros anos da exploração aurífera, quando muitos portugueses migravam para Minas Gerais em busca de oportunidades. Seus descendentes se fixaram na região e se conectaram com famílias locais importantes, como os Gonçalves Branca e os Francisco da Silva. Outro destaque desse ramo paterno é José Augustinho de Souza Benevides, identificado como cirurgião-mor, cargo que exigia formação específica e reconhecimento social, revelando o acesso da família à instrução formal e a funções de responsabilidade na comunidade.

O ramo materno, por sua vez, está ligado a famílias tradicionais de Minas Gerais, incluindo Resende, Santos, Pereira, Rocha e Penido, nomes recorrentes em registros paroquiais e civis do interior. A repetição de ancestrais, como Caetano de Souza Resende e Quitéria Maria da Conceição, em diferentes linhas da árvore, evidencia relações familiares permanentes na mesma região, padrão comum em áreas rurais mineiras, onde famílias mantinham vínculos estreitos e compartilhavam a mesma proximidade geográfica.

Os avós e bisavós maternos viviam em localidades tradicionais do interior, marcadas pela economia agrícola e pelo surgimento de povoados após o declínio da mineração. Os pais de João — Jacob Gonçalves Cardoso, de Lagoa Dourada, e Ana Luciana de Resende, de Araguari, deram continuidade a essa trajetória, vivendo em municípios que se consolidaram no século XIX com a expansão demográfica e as novas rotas comerciais no estado.

De forma geral, a genealogia de João evidencia a presença de origem portuguesa desde o início do século XVIII, a fixação contínua em Minas Gerais por várias gerações, a participação da família em atividades de relevância local, como a medicina, a prevalência de casamentos entre famílias tradicionais mineiras e uma migração interna que acompanhou a transição das antigas zonas mineradoras para áreas agrícolas e urbanas ao longo do século XIX,

Árvore Genealógica de

Maria Custódia de Oliveira Naves

A descoberta de pedras preciosas no Alto Paranaíba – especialmente após o achado do célebre diamante Estrela do Sul em 1852 por bandeirantes e exploradores – desencadeou uma nova onda migratória no interior de Minas Gerais. A notícia rapidamente alcançou as tradicionais zonas auríferas mineiras, como Ouro Preto, Diamantina, Sabará e Serro, atraindo tanto garimpeiros independentes quanto famílias inteiras habituadas ao trabalho minerador, que buscavam novas áreas promissoras para exploração.

Entre essas famílias destacava-se a família Naves, tradicionalmente ligada à atividade do garimpo. Diversos de seus membros participaram desse movimento migratório, entre eles José Francisco Naves, nascido em 1800 no Arraial de Santana do Funil (Lavras, MG), e seu filho Manoel Prudêncio Naves, nascido em 1831 no Arraial de Bom Sucesso, MG. Assim como muitos outros mineradores das antigas regiões auríferas, eles deixaram seus locais de origem e seguiram rumo ao Alto Paranaíba em busca de novas oportunidades.

Maria Custódia de Oliveira Naves era filha de Manoel Prudêncio Naves e de Isabel Cândida de Oliveira, que residiam na Fazenda Brejão, no Arraial de Santana do Rio das Velhas (Indianópolis, MG). Quanto aos avós paternos, sabe-se que eram José Francisco Naves, nascido em 1782 na cidade de Lavras, MG, e Anna Rosa de Jesus. Já os avós maternos eram Antônio Joaquim de Oliveira e Anna Ignocência Maria dos Anjos, naturais de Santa Juliana, termo do Araxá. Sabe-se ainda que sua mãe, Isabel Cândida de Oliveira, faleceu em Água Suja (Bagagem, MG), em 1869, deixando entre suas netas a memória de uma mulher considerada santa por sua bondade.

Entre os bisavós paternos de Maria Custódia encontra-se João Naves Damasceno. Ele era filho de João de Almeida Naves e de Luzia Moreira da Fonseca. Pelo lado paterno, era neto de Domingos Lopes da Silva e de Florência da Silva Naves; pelo lado materno, era neto de José Vieira da Cunha e de Catarina Portes. Florência da Silva Naves, sua avó paterna, era filha de João de Almeida Naves, batizado em 17 de dezembro de 1624 em Algodres, na Serra da Estrela – atual distrito da Guarda, pertencente ao bispado de Viseu, em Portugal – e falecido em 11 de março de 1715 em Santana de Parnaíba, SP. João de Almeida Naves casou-se com Maria da Silva Leite, filha de João Nunes da Silva e de Úrsula Pedroso.

Outra bisavó de Maria Custódia foi Anna Vittoria de São Thomé, nascida em 1761 em Prados, MG. Ela era filha de Antônio José Teixeira e de Maria Rita do Nascimento, ambos naturais de Braga, em Portugal. Pelo lado paterno, Anna Vittoria era neta de Francisco Teixeira Torres e de Margarida Ferreira de Lima, e pelo lado materno, de Agostinho Marques e Bonifácia Gomes de Oliveira.

Também figuram entre os bisavós Bernardo Machado Netto, nascido em 1764 em Prados, MG, filho de José Machado Netto e de Rosa Margarida de São Jorge, ambos originários dos Açores, em Portugal. Ele era neto paterno de Pedro Machado e Ana do Espírito Santo e neto materno de Joseph de Andrade Braga e Maria de Andrade Braga.

Completa a linhagem a bisavó Maria Joaquina da Silva, nascida em 1780. Ela era filha de José Alves Madeira, de Cassiterita, MG, e de Ana Joaquina da Silva, natural de São José del-Rei, também em Minas Gerais. Pelo lado paterno, era neta de Amaro Alves Madeira, natural de Trás-os-Montes, na região de Braga, em Portugal, e de Ignes Fonseca Pinto. Pelo lado materno, era neta de João da Silva e de Catarina Pereira.

Pais

  • Manoel Prudencio Naves
  • Isabel Cândida de Oliveira

 Avós Paternos

  • José Francisco Naves — nascido em 1782, Lavras, MG
  • Anna Rosa de Jesus

 Avós Maternos

  • Antônio Joaquim de Oliveira (Alferes) – de Santa Juliana, termo do Araxá
  • Anna Ignocência Maria dos Anjos – de Santa Juliana, Araxá

 Bisavós (linha paterna – Naves)

  • João Naves Damasceno

         Filho de:

  • João de Almeida Naves
  • Luzia Moreira da Fonseca

Neto paterno de:

  • Domingos Lopes da Silva
  • Florência da Silva Naves

Neto materno de:

  • José Vieira da Cunha
  • Catarina Portes

Observação: Florência da Silva Naves era filha de João de Almeida Naves, batizado em 17 dez 1624 em Algodres, Serra da Estrela (Guarda, Portugal), e falecido em 11 mar 1715, Santana de Parnaíba, SP; casado com Maria da Silva Leite, filha de João Nunes da Silva e Ursula Pedroso.

  • Anna Vittoria de São Thomé — nascida em Prados, MG (1761)

         Filha de:

Antônio José Teixeira e Maria Rita do Nascimento, ambos de Braga, Portugal,

Neta paterna de:

Francisco Teixeira Torres e Margarida Ferreira de Lima

Neta materna de:

Agostinho Marques e Bonifácia Gomes de Oliveira

 Bisavós (linha materna paterna)

  • Bernardo Machado Netto — Prados, MG (1764)

          Filho de:

José Machado Netto e Rosa Margarida de São Jorge, ambos dos Açores, Portugal

Neto paterno de:

Pedro Machado e Ana do Espírito Santo

Neto materno de:

Joseph de Andrade Braga e Maria de Andrade Braga

  • Maria Joaquina da Silva — nascida em 1780

         Filha de:

José Alves Madeira (Cassiterita, MG) e Ana Joaquina da Silva (São José del-Rei, MG)

Neta paterna de:

Amaro Alves Madeira, de Trás-os-Montes (Braga/Portugal), e Ignes Fonseca Pinto

Neta materna de: João da Silva e Catarina Pereira

A trajetória de João Jacob e Maria Custódia, assim como a de seus antepassados, revela muito mais que a simples sucessão de nomes e datas: ela compõe um retrato vívido da formação social, religiosa e cultural do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba. Entre povoados ainda jovens, garimpos e fazendas, esse casal e seus descendentes deixaram marcas na história regional.

Seus quinze filhos espalhados por Araxá, Nova Ponte, Estrela do Sul, Patrocínio, Uberlândia, Araguari, Corumbaíba e outras localidades – levaram consigo não apenas o sobrenome, mas valores que atravessaram gerações e resistência diante das adversidades. As mortes precoces de Maria, Adélia, Benvinda e da própria matriarca, Maria Custódia, reforçam o quanto essa história também é feita de sacrifícios, comuns às mulheres de seu tempo.

Assim, a saga desse casal e de seus descendentes permanece como um legado que ultrapassa documentos e registros: trata-se de memória viva, transmitida de geração em geração, reafirmando que cada ramo dessa grande árvore genealógica continua a carregar a identidade e a história de um povo que ajudou a moldar o Triângulo Mineiro.

  • Pesquisa e texto de Fabricio de Avila Ferreira. Natural de Araxá, MG, é um estudioso da história da cidade, com um extenso acervo fotográfico e documental que retrata a trajetória de Araxá e de suas famílias, fruto de mais de trinta anos de pesquisa. É biólogo especializado em Ciências Ambientais, professor e funcionário público.

Texto publicado no jornal “InterAção”, de Araxá, MG. Edição nº 1175, de 28 de outubro de 2025, na seção “Memórias e Histórias de Araxá e Região”, páginas 9 e 10.

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